1 ano depois…

Há exatos 1 ano eu começava o Caminho de Santiago. Comentários do final, a parte, quanta saudade dos lindo caminhos que percorri e dos amigos que encontrei… Um dia eu volto!

Finisterre

Acordamos e fomos para Finisterre. Viagem de ônibus mesmo num bate e volta.
Como não poderia deixar de ser, descemos na rodoviária de lá, almoçamos e depois ficamos a espera de um táxi para nos levar até o lugar. Mofamos! Foi ridículo!
Por sorte um rapaz do local onde almoçamos se ofereceu para nos levar até o local, fizemos uma vaquinha e pagamos a ele. Não era nem longe, pelo tempo que esperamos teria dado para ir a pé, mas quem, a essa altura, tem condição de ficar caminhando serelepe por aí?
Enfim, chegamos no lugar e, apesar dos pesares, tive a sensação de dever cumprido, uma satisfação, talvez. A vista é muito bonita!
Não pudemos ficar muito tempo porque, além de não ter muito o que favor além de contemplar a vista (teria valido a pena) tínhamos horário e o ônibus estava para chegar.
Na correria para não perder o ônibus, vimos Flávia no albergue, mal pudemos conversar, mas ela estava esperando minha amiguinha Marquesete que não encontrei mais…

Bom, a viagem terminou aqui. Amanhã saio cedinho para o aeroporto (valor do táxi tabelado do centro até lá, uns 20€, pensei que seria mais). Inicialmente voltaria só dia 4, mas decidi antecipar, já deu, enchi, fiquei com saudade e sem dinheiro. devo dizer que não foi o fim que esperava, mas não me arrependo, penso que, bem ou mal, a experiência é válida, há sempre história para contar, lembrar com saudade, rir de momentos difíceis… No final tudo terminou bem e fiquei muito contente com as pessoas que conheci e as amizades que certamente ficarão.

PS: O avião da volta foi bem melhor em conforto e higiene, logo fiquei sem opinião formada sobre a Iberia, está 50/50. O mais legal foi que na hora de decolar e aterrissar aparecia as imagens de fora nas televisões, muito legal, só fiquei meio assim porque era acompanhado de músicas lentas e instrumentais que me lembrou Lost, o que não é nada bom para quem vai atravessar o Atlântico, mesmo assim foi bacana.

Só rindo

Peguei o dinheiro nos Correios mesmo porque aproveitei para pegar minha caixa. Ao voltar para a pensão encontrei Gabi, Rai e Adriana saindo da pensão deles esperando o táxi para ir ao aeroporto. Acabei combinando com Lu, Ricardo e Adriano de irmos a El Corte Inglés. Deixei as coisas na pensão e voltei para me encontrar com eles. Pense numa loja bacana, gigante e com tudo… O melhor, rola tax free. Me empolguei logo. Depois de tantas fotos bacanas pelo Caminho me animei e resolvi comprar uma câmera boa de verdade. Adriano que já tinha feito curso e tinha um IPhone me ajudou na escolha e na pesquisa comparativa de preço para saber como estava o valor em relação ao Brasil. Tudo certo e escolhido, mas, na hora de pagar, cadê o cartão? Voltei para a pensão feito uma louca, pensei que tinha deixado lá, revirei tudo e nada. Pensei que pudesse ter esquecido no restaurante onde comi com os canadenses, mas passei por lá e estava fechado. na dúvida, liguei pra cancelar o único cartão que tinha e para pedir mais dinheiro. Enquanto aguardava todo o processo burocrático (me retei com um atendente do Itaú, mas tudo bem), reencontrei Regina, ela também estava com um probleminha, a câmera dela deu pau e ela estava esperando um cara ver se dava jeito.
Depois de esperar por quase 3 horas e resolver tudo, antes de voltar pro El Corte Inglés, passo pelo restaurante e, tcham ram, havia realmente esquecido o cartão lá. Já era, só queria confirmar porque, afinal, ele já estava cancelado.
Voltando para o El corte Inglés, comprei a câmera, fui ao mercado e na parte de roupas, mais uma vez, na hora de pagar, algo faltando. Sério, alguma coisa muito errada está acontecendo comigo, afff. Volto no balcão da câmera e o cara já me recebe “foi aqui mesmo que você esqueceu”, nem precisei perguntar nada. Ele me levou no achados e perdidos de lá e a mulher já me recebeu “ah, você que é a pessoa que anda esquecendo as coisas hoje”, olha a situação, demos risada, grande piada.
Depois das comprinhas, voltei para a pensão para pegar minhas coisas. O pessoal sugeriu que eu ficasse na pensão deles já que os outros tinham viajado tinha lugar. Não tinha um quarto para mim, mas era bem mais barato.

A Missa

Liguei para o banco para saber estava tudo ok com o dinheiro, disseram que sim, mas quando fui no lugar, estava fechado, que tal? Vou ter de esperar até amanhã para pegar.
Reencontrei os canadenses que estavam chegando naquela hora. Não acreditaram como eu cheguei antes deles, mas tudo bem.
A caminho da Catedral para assistir a tão famosa missa, reencontrei os brasileiros de meu vôo e do início lá de trás: Gabi, Rai, Adri, Lu, Ricardo, Adriano e depois Alex se juntou a nós.
Pegamos uma fila gigante para entrar na Catedral. Há quem não concorde, mas não achei legal a coisa de ser tudo junto e misturado, não importa se você é peregrino ou não. Achei bizarro sim e digo mesmo, afinal, é a maior ralação e pra missa, desculpa a ignorância, mas para mim a missa é dos peregrinos sim, a chamam assim, e nada. Se isso já foi bizarro, mais bizarro ainda foi o padre citar trocentos paroquinhas (imagino que patrocinada, claro), falar alguns países europeus e nem mencionar América como um todo. Você de longe, que se lascou pra chegar que se lenhe, foi a impressão que tive.
Uma fila monstra para abraçar o santo, as ruas parecendo um carnaval só de velhos.
Com esse astral me coube passar numa vendinha e comprar umas coisinhas, o cartão conforme o carinha prometeu estava com crédito, fui para a pensão e acabei cochilando.
Sai para me encontrar com Mary, Karen e Ron. Depois um role por alguns locais, bebemos comemos, demos risadas, foi bacana. Hoje foi a primeira vez que vi a noite de verdade, achei a Catedral iluminada belíssima.
Voltei para a pensão quase meia noite. Assisti TV, tive a oportunidade de ver o CQC espanhol (só mulheres na bancada), engraçado que eles passaram Perdidos (Lost) representado com bonequinhos. Para finalizar vi um filme brasileiro, creia, acho que era Eu Não Conhecia Tururu.

Game over

Hoje foi meu último dia no Caminho.
Reencontrei o pessoal de Santander, eles tiveram de andar mais do que haviam planejado porque não estavam achando lugar para os sete.
Na entrada de Santiago reencontrei Mauro e Sérgio. É muito bom esse tipo de surpresa que o caminho proporciona, esses encontros e reencontros.
Chegando em Santiago aquela coisa de cidade grande, andar andar prestando muita atenção para não perder as setas. A Catedral fica num centro histórico, por assim dizer, que me lembrou e muito o Pelourinho. Não que casinhas coloridas, mas tem aquela vibe, cheio de turistas, o povo querendo vender quinquilharia etc.
Almocei enquanto esperava a Oficina de Turismo abrir. Mais um mal-estar Carla X galego, termino de comer e peço para a garçonete um “helado”, repeti trocentas vezes e ela me olhando com cara de interrogação, apontei para o cartaz, ela pegou, apontou, quando afirmei que era aquilo ela me vem com um “ahhhhh, helado”. Não, sério, sem querer tirar onda nem nada, mas meu espanhol não é tão bizarro assim, me comuniquei perfeita e tranquilamente, mas foi chegar na Galícia… Muito chato!
Quando voltei para pegar a Compostelana, reencontrei Dácio e Nilsa.
Fui procurar um local para ficar, tudo cheio, mas consegui uma pensãozinha.
Devo dizer que fiquei bem feliz por ter feito todo o caminho de Triacastela até Santiago sem usar outro meio senão meus lindos e calejados pezinhos.
Devo dizer também que, infelizmente não fui picada pelo bichinho do Caminho. Achei os último quilômetros, pra não dizer toda a Galícia bem chata. Tudo cheio, tudo caro, as pessoas sem um sentimento e atitudes do início, sei lá, quem estiver lendo isso e não tiver feito o Caminho dificilmente entenderá, mas quem já fez, especialmente esse Caminho junto comigo. No fim das contas Manuel é que tinha razão, se é hoje jamais em hipótese alguma teria usado outros artifícios senão meus pés, teria aproveitado mais o c.a.m.i.n.h.o chegando ou não ao destino, não espero que as pessoas me entendam, até porque eu não entendi também, mas Santiago é só um destino… Enfim, não sei se estou sendo clara, mas de qualquer forma, só quem viveu para saber. Mas também não posso ser injusta, se não tivesse feito da forma como fiz não teria encontrado e reencontrado as pessoas que passaram por meu Caminho, que fizeram o meu Caminho.
Agora assuntos extra-Caminho:
Decidi que queria mudar os ares e fui comprar uns vestidinhos. Achei umas lojas com preços bacanas, mesmo em Euro. Passei por uma outra e vi uma bota de couro linda a um preço irrisório, quando fui passar o cartão ouvi a musiquinha “pon pon pon”, não passou e fiquei mega preocupa. Saí de lá, fui num caixa para tentar sacar algum dinheiro e nada. Voltei para a pensão já super preocupada, pra variar não me entendia com a velhinha, muito menos com o velhinho donos do local. A sorte foi a chegada de uma garota, não sei se filha ou neta que me entendeu e conseguiu para mim a forma de ligar a cobrar para o número do cartão no Brasil. Fica a dica: apesar de ter “ligue a cobrar…” o número é para uma ligação normal, logo, na dúvida, procure saber como se comunicar numa emergência. Fiquei das 21 às 23 horas para “resolver”. O problema foi que “comi” o limite de meu cartão com meus saques e não tinha mais o que fazer, o cara queria me disponibilizar extra-oficialmente mais crédito no cartão, mas não resolveria meu problema, precisava de dinheiro. Depois ele me disse que poderia solicitar o saque pelo Visa Internacional, falei com o povo do Visa que fizeram um procedimento para eu receber o dinheiro, oh, pense na confusão…
Estava mega agitada quando fui para meu quarto, a sorte é que tinha TV e fiquei me distraindo com um festival de música europeu que achei um barato: Eurovision Song Contest 2010 (56ª edição). É um festival de música que tem, creio eu, participante de todos os países ou quase todos. Achei uma pena não ter visto do início, parece bacana. UK ficou em último e a representante alemã (Lena Meyer-Landrut) levou o prêmio. O curioso é que quem ganha, leva a edição seguinte para seu país. Outro detalhe: todos os países se comunicavam em inglês, exceto os franceses, por que será que não me surpreendi?

Pensei que perderia o dente

Hoje foi um dia meio saco. Pra começar, tomei café da manhã no bar de Seu Pablo e Dona Alda (mesmo lugar da janta de ontem), ele começou a falar e eu dizer que não estava entendendo e não vi nenhum esforço dele para que eu entendesse também, tomei antipatia. Brasileiro deve ser mesmo o povo mais imbecil do mundo, porque quando um turista vem pra cá ficamos parecendo uns idiotas tentando fazer com que se sintam bem, nos arriscamos (se não conhecemos) o idioma deles e quando estamos na posição de turista percebo que a recíproca não é verdadeira.
Andei um pedaço com o pessoal de Santander, falamos sobre o banco, política, copa do mundo, olimpíadas… caminhada super cabeça. Riram quando falei do símbolo do banco que parece um coco e disseram que o serviço deles é uma droga mesmo, nenhum deles tinha conta nele.
Hoje estou mal de horário e valores porque passei por um momento um tanto quanto traumático. Quando estava em Arzúra, depois de meu lanche fui mascar um chiclete e sabe-se lá como bati em meu dente e começou a sangrar, senti ele meio mole, achei que perderia o dente, tive um crise de choro no meio do nada, não sabia se voltava pra cidade mais próxima ou se continuava, enfim, pense no estresse…
A sorte foi que no meio do caminho em uma lanchonete reencontrei as curitibanas e uma delas é médica. Mostrei para ela minha boca, ela disse que eu não me preocupasse que estava tudo no lugar e recomendou que eu colocasse gelo. Elas estavam saindo quando eu cheguei, foi uma pausa importante para eu me acalmar.
Quando voltei a caminhar voltei a encontrá-las fazendo piquenique. Bete me contou que conheceu os canadenses e que Ron disse que eu era a embaixadora do Brasil no Caminho pela simpatia e conversa com as pessoas, um fofo!
Me separei delas e fui até o Albergue Santa Irene. Conheci Maria de A Coruña (não me acostumo com esse A), Jesus e Janete de Caracas além de Pilar de Cordoba que deve ter ficado meio puta da vida quando perguntei como funcionava essa coisa da siesta, mas veja você, eu passando quase um mês pelo país, tudo bem que cidade pequenas, mas mesmo assim, tudo fechado e a outra se ofende. E olha que perguntei numa boa, curiosidade mesmo, até para não ter esse preconceito, e tal. Enfim, aos desavisados, segundo ela essa coisa de siesta rola sim, mas é mais em cidades pequenas ou comércios familiares, essas coisas e claro, nos finais de semana. Garantiu que nas grandes cidades isso não existe, é mito. Ela disse, vou acreditar.
jantei lá no albergue mesmo: sopa, merluza, pêssego com abacaxi em caldas e água.

O pé deu uma trégua e segui…

As meias não secaram, que tal? Pense em minha angústia… Pedi para Adelina me emprestar o secador de cabelo, mas ao invés disso ela preferiu me dar uma meia, não pense que foi mega boa vontade não que não foi, na verdade eles desligaram o aquecedor o que poderia ter resolvida a questão e ela estava com receio de queimar o secador, justo, mas acabou que sobrei com uma meia velha e fina. Rezei para não ter problemas, mas, graças a Deus, nem tive.
Reencontrei o alemão (não lembro o nome dele) da foto do peixe de Foncebadon.
Algumas bizarrices do dia. Na hora de meu lanche da manhã, como de costume, parei em um bar em A Calzada, juro que ia sentar, lanchar e tudo, mas, sabe-se lá porque, perguntei primeiro do carimbo, ela super “gentilmente” respondeu que era só para clientes e emendou “vai querer alguma coisa?” “no, gracias”. Depois fiquei me perguntando se o fator de ter só três gatos pingados tinha relação… Andei mais um pouco em um outro local lotado e sem frescura com o carimbo. Tinha achado que essa seria a pior do dia, mas depois vi um albergue que cobrava 0,20€ pelo carimbo, piriaí?!?!
Havia planejado ir até ponte Campaña-Mato ou Casanova, mas cheguei super cedo e com o pé firme forte decidi continuar até Melide.
No km 57 parei para descansar os pés e aproveitei para comer um sanduíche de queijo com tomate.
Fiquei no albergue provisional para esse ano Jacobeo de 2010 (5€). Gostei muito da organização, aqui também teve colcha e fronha descartáveis. Conheci uns espanhóis Sandra (a cara de Roberta de SCS) e Antônio conterrâneos de Pablo, de Santander. Eles me convidaram para me juntar ao grupo deles e colocar umas coisas para lavar. Fomos nós três atrás de uma lavanderia. Na volta vi uma cena fofinha que fiquei com raiva de mim por não estar com máquina na hora, o velhinho com o jegue e o cachorro que havia cruzado no Caminho estava andando na cidade, até aí tudo bem, o fofo foi o cão em cima do jegue sentadinho, a coisa mais tchuca.
Parei em um mercadinho porque tinha decidido comer no albergue, pois tinha visto uma cozinha. Ainda bem que tinha optado por uma sopinha (sim, a temperatura voltou a cair nesses últimos 3 dias) e só comprei sopa Knorr, pão, suco e umas coisinhas pro café da manhã. Digo ainda bem porque quando cheguei no albergue, apesar de ter cozinha super modernosa não havia utensílio algum. Acabei comendo num bar/restaurante em frente de um casal de velhinhos. Perguntei o que tinha para comer e quando ela me disse que tinha arroz com carne os olhos brilharam, pedi um combinado disso com salada e uma Coca (7€). Quando chegou o prato, decepção! Era tipo uma paella/risoto, arroz com açafrão, carne e alguns legumes, mas não era qualquer arroz, era bem aguado, empapado que me lembrou o que minha mãe comprava na feira para a mistureba dos cachorros, pronto, era quase aquilo que ela dava para os cachorros só que com açafrão. Devo dizer que a fome é de fato o melhor tempero que existe, quer dizer, como tinha tomate e alface temperadinhos e a carne antes de se misturar com o arroz foi fritinha, até que estava bom.
Ah, uma constatação. A velhinha do mercadinho quis saber se eu entendia galego, disse que não, ela me olhou meio assim, enfim, devo dizer que é difícil de entender o povo da Galícia, estava ruim em Lugo e só fez piorar em La Coruña que aqui para eles é A Coruña, afff…

14,078 km também faz parte do Caminho

Saí de Portomarín às 7:30. Reencontrei no Café/Bar de Gonzar Nilsa e Dácio, Regina e Maria, Solange e as 2 amigas dela (Magali e Bete).
Hoje foi um dia um tanto quanto improdutivo, só andei 14,078 km e decidi parar às 13:00. Estava chovendo e nessas condições os pés sofrem mais.
parei no albergue de Ventas de Narón (10€). Aproveitei para colocar as roupas para lavar (3€) aproveitando que, apesar do tempo feio, havia uma parte coberta e estava com tempo para deixar seca com calma. Outra coisa que fiz foi almoçar (9€), o próprio albergue contava com um restaurante e não tive que me deslocar (também nem teria como nem para onde já que o lugar era minúsculo).
Quando cheguei conheci mais dois brasileiros inéditos até então, Ana e Nelson de Ribeirão Preto, eles estavam esperando um táxi.
Tive a grata surpresa que reencontrar com canadenses dessa vez acompanhados de dois americanos da Califórnia (Victória – a cara de Barbra Streisand – e Greg). Karen quando me viu, me deu um super abraço, disse que sonhou comigo e que estava preocupada com os meus pés. Tranquilizei dizendo que ia ficar ali para descansar e que andaria em meu ritmo para não forçar. Já desencanei de ir andando até Finisterre, quando chegar em Santiago cheguei e pronto, sem estresse.
Aconteceu algo bem engraçado, eles chegaram enquanto eu comia e Karen e Ron se animaram para pedir a comida também, as iam dividir já que era muita comida e eles teriam de seguir ainda. Mary, que é filha de espanhóis e fala espanhol, mais ou menos, mas fala, pediu um MP para eles, Karen tomaria a sopa, Ron comeria a carne com batata e ela comeria só um sanduíche. Quando a mulher veio servir achou que eram dois MP e veio com um mundo de sopa e dois pratos de comida. Mary ficou super chateada com o espanhol dela do tipo “poxa, falei em espanhol e ela nem entendeu o que eu queria”, enfim, demos risadas e eu nem pude ajudar na comilança porque a essa altura já havia terminado.
Não vou mentir que quando eles foram embora senti um vazio porque sabia que não voltaria a encontrá-los já que a cada dia nos afastaríamos mais… Enfim, coisas do Caminho, pessoas vem e vão, faz parte.
O dia ainda reservou um momento hilário. Enquanto cuidava de meus pés (coloquei-os descansando em água quente com álcool de romeiro) conheci uma alemã, Ingrid. Tudo bem que eu fiz curso de alemão, mas atualmente não é nada demais, como digo, é suficiente para que eu seja uma turista simpática na Alemanha e pronto. Para meu espanto Ingrid só falava alemão. Assumo aqui minha ignorância, na minha cabeça, tirando franceses, todos os europeus falavam sua língua mais o inglês, não foi o caso. Ainda assim tentei ter uma conversa com ela na base de mímica, alemão analfabeto e um guia de conversação alemão-espanhol que ela tinha. A gente riu da tentativa, mas não levamos também a diante porque chegou num ponto que ficou insustentável.
Outra personagem do dia foi a dinamarquesa Inga. Ela conseguiu me tirar do sério com a falta de higiene dela. Ela viu que coloquei minhas roupas para lavar, perguntou quanto paguei (deve ter achado caro) e decidiu que só um arzinho seria suficiente pr’aquelas roupas podres dela. Nada contra pessoas porquinhas, mas, a partir do momento que você vem com as roupas catinguentas e coloca em cima das minhas limpinhas… ahhhh pirei! Respirei fundo e tudo mais, mas sem cerimônia coloquei aquela inhaca longe de mim. o mais legal da história é que, como estava chovendo, as roupas não secaram, logo tivemos de colocar no quarto, que tal dormir com um odorizador natural dinamarquês? Não recomendo!
O último personagem de hoje foi o espanhol Pablo de Santander que conheci na hora de jantar. Informação curiosa: segundo ele, o verdadeiro Caminho de Santiago começa em Donostia e vai pela costa (Caminho do Norte), ele disse que o Caminho “entrou” por conta dos ataques do piratas do passado.
Ele comentou ainda que conheço um brasileiro numa de suas paradas que estava fazendo voto de silêncio. Ele acho curioso e eu desnecessário, mas tudo bem, cada um sabe de si…

No meio do caminho tinha 3 canadenses

Tive de esperar os Correios abrirem para pegar e redespachar minhas coisas para Santiago. Foram ao todo 6,950 km a menos para carregar e meu corpo agradece. A cabaça que ganhei em Ponferrada teve de ficar fora (sorry José Blanco e família), mas Nilsa e Dácio me explicaram que por ela estar com alguns funguinho (parecia estar) não poderia entrar no Brasil, enfim, valeu a intenção.
Comecei minha caminhada só às 9:00. Segui com o casal do Ceará até a área de descanso inteligente no km 108. Achei bem bacana o local com máquinas que vendiam de tudo que você imaginar de água a cartão de memória para câmera digital.
A caminhada foi chatinha hoje, frio, calor, chuva e sol tudo de uma vez.
Durante um bom trecho do caminho fui cruzando com três pessoas, ora eu passava, ora eles me passavam. Num dado momento começamos a conversar, nos apresentamos, Mary, Karen e Ron são canadenses, uns figuraças. Eles estavam super tranquilo no caminho. Não me recordo agora onde começaram, mas estão no esquema hotel reservado despachando a bagagem, super tranquilos, curtindo o caminho e parando para beber um vinho ou cerveja de vez em quando Foi numa dessas paradas que os conheci.
Andei com eles nos kms finais até Portomarín. Cheguei me arrastando às 18:00 como consequência albergues (públicos e particulares) lotados. Não teve jeito de parar no primeiro local, penei para encontrar, já estava ficando preocupada porque além de estar ficando tarde, estava chovendo e estava muito cansada. Me indicaram o hotel e mais um vez lá fui eu. Não tinha quarto propriamente dito, mas tinha uma área com quartos individuais, mas sem banheiro por uns míseros 30€ (pelo menos inclui café), como não estou em situação favorável era pegar ou largar. Solange e as amigas estavam hospedadas no mesmo local e ela me ajudou com Pedro, o carinha do hotel que estava todo cheio de graça, pense na minha cara de mega paciência… Digo que ela me ajudou porque era bem capaz de eu não conseguir nada por mandar o cara tomar naquele lugar, obrigada So!
Depois de acomodado fui jantar (10€). Engraçado que ao chegar no restaurante um grupo de espanhóis acenou para mim tão animadamente que respondi, mas sem fazer ideia de quem eram, ou estava me confundindo com alguém (normal) ou estavam em Triacastela, só pode.

O paraíso de Samos

Sai de Triacastela às 7:30. Tinha ficado na dúvida de qual caminho seguir porque de lá existem 2 possibilidade para chegar até Sarria, um tradicional, por assim dizer, que aparece no guia oficial da Galícia onde aparecem alguns povoados e um outro que passa por Samos único ponto entre Triacastela e Sarria.
Decidi ir por Samos e não me arrependi: Lindo! O lugar é lindo, o caminho é lindo, por não ser o caminho preferido da galera reencontrei a paz, a tranquilidade e o sossego do início da viagem.
Gastei um tempinho para conhecer o monastério. Enquanto esperava o tour começar, fiquei tirando umas fotos, padre Augustino Miguel me pediu para tirar uma foto dele e mandar depois (detalhe: ainda não mandei).
Como sempre o pé incomodou (novidade), mas segui firme e forte até Sarria porque o único ônibus programado para o dia já havia passado. Uma coisa ruim de boa parte o trecho é que não tinha lugar para descansar, senti falta disso, poderia ter feito uns pontos de descanso ou coisa do tipo.
Segundo o guia da Galícia, andei 23,5 km, no guia dos albergues que tem sido minha referência só tem a informação do outro caminho.
Pra variar fiquei no primeiro local que avistei (cheguei às 17:30), nesse caso foi o albergue A Pedra (9€). Uma coisa bacana daqui é que quando chegamos ganhamos um kit com a roupa de cama descartável, material fininho, mas achei bacana a preocupação com a higiene.
Depois de me acomodar dei uma volta nos arredores do albergue. Comprei um chinelo, uma joelheira e uns comes e bebes.
Voltei para o albergue e separei as coisas para despachar amanhã, a mochila ficou leve!
Pedi o menu do peregrino no restaurante do dono do albergue (8€): salada mista, filet de terneira com batata frita, vinho e flan.
Conheci um peregrino brasileiro que, depois de terminar o caminho, como ainda tinha tempo antes de voltar para casa, resolveu fazer um “estágio” de hospitaleiro no albergue. Rafael (SP) além de aprendiz de hospitaleiro é mágico e faz palestras motivacionais.
Tive uma noite péssima, o estômago me matou, imagino que tenha sido o excesso do ibuprofeno. Detalhe que ao acordar vi um casal com movimentos mega suspeitos, mas tudo bem…

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