O dia em que Carla rezou uma missa


Decidi seguir o conselho de Cristovam e despachei a mochila (7€). Me senti super leve com minha pochete onde além das coisas de sempre (documentos, dinheiro etc) resolvi colocar meu kit primeiros socorros por assim dizer. Devo dizer que foi um estalo que me deu, não sei explicar, já que nunca precisei de nada durante o caminho e, até encontrar minha mochila nO Cebreiro não levaria tanto tempo assim.

Subida cheia de pedras

Algum tempo depois, bem no início da subida vem a explicação… Enquanto eu fotografava as imensas pedras do Caminho ouvi dois ciclistas se aproximando. Não eram bem bicigrinos porque, apesar das roupas de ciclistas não carregavam equipamento algum, nem capacete. Foi questão de segundos, olhei, os vi se aproximando, virei para tirar uma foto escuto um barulhão, quando olho vejo só um deles olhando pro barranco. O outro tinha caído de uma altura considerável. Desci até onde eles estavam e vi que o cara estava com um corte horrível na cabeça, o amigo com a mão toda suja tentando ajudar. Foi quando ofereci as coisas que tinha trazido, álcool gel, curativos, tesoura, enfim, não era nada muito apropriado, mas já ajudava até os outros amigos deles chegarem para poder levá-lo ao hospital.

Um dos ciclistas, o outro tá no barranco

Nesse momento tive aquela sensação de coisas estranhas do Caminho, sei lá, não sei explicar.
Segui em frente e fiquei chateada com uma coisa, não sei se foi o fato de estar sem mochila, mas várias pessoas passaram por mim e não me disseram ou não responderam ao já costumeiro “Buen Camino”. Achei bizarro, mas tudo bem. Entrei o casal de irlandeses (Joana e o marido que não me recordo o nome) e comentei isso, ela, uma fofa virou e disse “não seja por isso ‘buen camino’, não será por isso que você não terá”.
Mesmo sem mochila e sem chuva ou lama meu pé doeu depois que cheguei nO Cebreiro, decidi pegar um táxi (30€) até Triacastela por três motivos: primeiro porque queria cumprir o trecho do dia, segundo porque sabia que tinha uma descida bizarra até Triacastela e porque as acomodações estavam lotadas.
Em Triacastela a situação não foi muito diferente, mas o taxista consegui o contato do cara de uma pensão que me alugou um puxadinho (40€ sem café da manhã), por assim dizer, da casa dele. Não sei porque, mas estou com a impressão de que tudo meio que vai inflacionar a partir de agora, pois, em Triacastela, começa os 100 km finais e consequentemente o número maior de pessoas.
Me acomodei no puxadinho, tomei banho e sai para comer alguma coisa. Era umas 16/17 horas e, apesar de haver alguns bares/restaurantes abertos, apenas um estava servindo comida. A cena foi meio ridícula, uma rua estreita, dois bares um de frente pro outro, um lotado e o outro vazio. Olha, ‘cês vão me desculpar, mas depois neguinho vem falar que o país está em crise, sinceramente, não dá pra entender…

Quem será qeu tá ganhando dinheiro?

Enfim, comi e fui conhecer a igreja. Como ainda ia demorar até a missa (estava curiosa para assistir porque já tinha lido a respeito no blog não sei se o de Tilara ou o de Laila) fui comprar uma outra credencial, pois a minha já está completa.
Apesar do cansaço e da tentação de ir pro puxadinho, resisti firme porque, como o puxadinho ficava no final da rua, era possível que, se eu fosse, não retornasse. Fiquei sentada na igreja atualizando a agenda até o Padre Augusto vir conversar comigo. Falei que era do Brasil e ele logo se interessou porque teve câncer e disseram que graviola é bom no tratamento. Ele me mostrou a sacristia com as pilhas de orações em muitos idiomas. Quando saiu para se trocar, perguntou se eu falava inglês, eu disse que sim e ele completou dizendo que eu iria ajudá-lo, respondi que tudo bem. No blog ou de Laila ou de Tilara, já tinha lido que ele chama uma pessoa de cada país praticamente para ler a Benção do Peregrino em seu idioma.
Enquanto esperava conheci Solange, mais uma brasileira dessa vez de Curitiba. Não chegamos a conversar muito porque logo o padre entrou, cumprimentou a todos e me chamou para o altar. Sentei num dos bancos que ficam dispostos nas laterais e ele começou a fazer a chamada dos idiomas lá presentes: inglês, francês, castelhano, galego etc. Como a igreja estava lotada, Solange acabou sentando no altar também, o que foi minha sorte…
É, sorte! É que logo depois de acomodar todos ele e dizer que ninguém precisava ficar no senta-levanta das missas porque ele sabia da rotina do peregrino (ponto pra ele!), começou a falar da importância das pessoas, especialmente os espanhóis, falarem inglês, pois, querendo ou não é a língua mais falada pelas pessoas, o idioma da globalização. Depois disso, ele dá uma pausa e me chama. Chego ao lado dele que disse “traduza, por favor”. Eu falei e achei que era isso, mas aí ele vira “não senhora, fique aqui do meu lado, você vai me ajudar na missa”. Oi? Como assim? Tradução simultânea! Creia, do castelhano para o inglês. Isso mesmo, igreja lotada e eu lá dando o sermão junto com o padre. Sim, eu estava dando o sermão porque o padre desandava a falar, só depois dos sinais dos espanhóis ao ver minha cara de “alow, eu tô aqui pegue leve” é que ele se tocava e dizia “ah é, você… traduza”, com isso tinha que dizer com minhas palavras o que ele tinha acabado de falar, quando terminava ele “muito bem, está melhor do que eu”. Mas sim, por que Solange foi minha sorte? Ela me socorreu em alguns momentos. Veja bem, eu me comunico em inglês, me largue em qualquer canto que beleza, mas gente, como traduzir os termos de uma missa? Eu te pergunto: você sabe todos os sacramentos? Vou ser bem sincera, não sou grande conhecedora do assunto nem em português, quem dirá em inglês.

A prova tirada por Mauro

Foi uma experiência no mínimo curiosa, garanto que as pessoas presentes se divertiram horrores as minhas custas, tiraram fotos… Não vou mentir que pensei na hora “poxa, se eu soubesse que estaria aqui, teria deixado minha câmera com alguém…”, mas parece que Deus ouviu minhas preces… Quando eu olho, vejo uma pessoa conhecida se aproximando e tirando uma foto e pensei “meu Deus, quem será?”, tentei lembrar quando havia encontrado com ele no Caminho, mas não me recordava, no final a ficha caiu: era Mauro que conheci na AACS-RJ. Ele chegou bem na hora que estava lendo a benção em português.
Depois da missa recebi elogios de algumas pessoas que estavam presentes e fui tomar um vinho com uma turma nova de brasileiros: Mauro (que já conhecia), o irmão dele (que não lembro o nome), Fátima do RJ, Regina e Maria de Curitiba também (não estavam com Solange).
Perto de voltar pro puxadinho o padre Augusto chegou e nos fez companhia.

 

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2 Comentários

  1. Clara said,

    15/01/2011 às 7:00

    Adorei! Nunca imaginei CaRla rezando missa, e em inglês!
    Espero q seu pé não doído mto enquanto vc estava lá “em cima”!
    Sobre seu puxadinho, meio caro, hein?

  2. Carla said,

    15/01/2011 às 13:24

    Meio caro? Caríssimo, mas td bem… =/


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