O dia em que Carla rezou uma missa


Decidi seguir o conselho de Cristovam e despachei a mochila (7€). Me senti super leve com minha pochete onde além das coisas de sempre (documentos, dinheiro etc) resolvi colocar meu kit primeiros socorros por assim dizer. Devo dizer que foi um estalo que me deu, não sei explicar, já que nunca precisei de nada durante o caminho e, até encontrar minha mochila nO Cebreiro não levaria tanto tempo assim.

Subida cheia de pedras

Algum tempo depois, bem no início da subida vem a explicação… Enquanto eu fotografava as imensas pedras do Caminho ouvi dois ciclistas se aproximando. Não eram bem bicigrinos porque, apesar das roupas de ciclistas não carregavam equipamento algum, nem capacete. Foi questão de segundos, olhei, os vi se aproximando, virei para tirar uma foto escuto um barulhão, quando olho vejo só um deles olhando pro barranco. O outro tinha caído de uma altura considerável. Desci até onde eles estavam e vi que o cara estava com um corte horrível na cabeça, o amigo com a mão toda suja tentando ajudar. Foi quando ofereci as coisas que tinha trazido, álcool gel, curativos, tesoura, enfim, não era nada muito apropriado, mas já ajudava até os outros amigos deles chegarem para poder levá-lo ao hospital.

Um dos ciclistas, o outro tá no barranco

Nesse momento tive aquela sensação de coisas estranhas do Caminho, sei lá, não sei explicar.
Segui em frente e fiquei chateada com uma coisa, não sei se foi o fato de estar sem mochila, mas várias pessoas passaram por mim e não me disseram ou não responderam ao já costumeiro “Buen Camino”. Achei bizarro, mas tudo bem. Entrei o casal de irlandeses (Joana e o marido que não me recordo o nome) e comentei isso, ela, uma fofa virou e disse “não seja por isso ‘buen camino’, não será por isso que você não terá”.
Mesmo sem mochila e sem chuva ou lama meu pé doeu depois que cheguei nO Cebreiro, decidi pegar um táxi (30€) até Triacastela por três motivos: primeiro porque queria cumprir o trecho do dia, segundo porque sabia que tinha uma descida bizarra até Triacastela e porque as acomodações estavam lotadas.
Em Triacastela a situação não foi muito diferente, mas o taxista consegui o contato do cara de uma pensão que me alugou um puxadinho (40€ sem café da manhã), por assim dizer, da casa dele. Não sei porque, mas estou com a impressão de que tudo meio que vai inflacionar a partir de agora, pois, em Triacastela, começa os 100 km finais e consequentemente o número maior de pessoas.
Me acomodei no puxadinho, tomei banho e sai para comer alguma coisa. Era umas 16/17 horas e, apesar de haver alguns bares/restaurantes abertos, apenas um estava servindo comida. A cena foi meio ridícula, uma rua estreita, dois bares um de frente pro outro, um lotado e o outro vazio. Olha, ‘cês vão me desculpar, mas depois neguinho vem falar que o país está em crise, sinceramente, não dá pra entender…

Quem será qeu tá ganhando dinheiro?

Enfim, comi e fui conhecer a igreja. Como ainda ia demorar até a missa (estava curiosa para assistir porque já tinha lido a respeito no blog não sei se o de Tilara ou o de Laila) fui comprar uma outra credencial, pois a minha já está completa.
Apesar do cansaço e da tentação de ir pro puxadinho, resisti firme porque, como o puxadinho ficava no final da rua, era possível que, se eu fosse, não retornasse. Fiquei sentada na igreja atualizando a agenda até o Padre Augusto vir conversar comigo. Falei que era do Brasil e ele logo se interessou porque teve câncer e disseram que graviola é bom no tratamento. Ele me mostrou a sacristia com as pilhas de orações em muitos idiomas. Quando saiu para se trocar, perguntou se eu falava inglês, eu disse que sim e ele completou dizendo que eu iria ajudá-lo, respondi que tudo bem. No blog ou de Laila ou de Tilara, já tinha lido que ele chama uma pessoa de cada país praticamente para ler a Benção do Peregrino em seu idioma.
Enquanto esperava conheci Solange, mais uma brasileira dessa vez de Curitiba. Não chegamos a conversar muito porque logo o padre entrou, cumprimentou a todos e me chamou para o altar. Sentei num dos bancos que ficam dispostos nas laterais e ele começou a fazer a chamada dos idiomas lá presentes: inglês, francês, castelhano, galego etc. Como a igreja estava lotada, Solange acabou sentando no altar também, o que foi minha sorte…
É, sorte! É que logo depois de acomodar todos ele e dizer que ninguém precisava ficar no senta-levanta das missas porque ele sabia da rotina do peregrino (ponto pra ele!), começou a falar da importância das pessoas, especialmente os espanhóis, falarem inglês, pois, querendo ou não é a língua mais falada pelas pessoas, o idioma da globalização. Depois disso, ele dá uma pausa e me chama. Chego ao lado dele que disse “traduza, por favor”. Eu falei e achei que era isso, mas aí ele vira “não senhora, fique aqui do meu lado, você vai me ajudar na missa”. Oi? Como assim? Tradução simultânea! Creia, do castelhano para o inglês. Isso mesmo, igreja lotada e eu lá dando o sermão junto com o padre. Sim, eu estava dando o sermão porque o padre desandava a falar, só depois dos sinais dos espanhóis ao ver minha cara de “alow, eu tô aqui pegue leve” é que ele se tocava e dizia “ah é, você… traduza”, com isso tinha que dizer com minhas palavras o que ele tinha acabado de falar, quando terminava ele “muito bem, está melhor do que eu”. Mas sim, por que Solange foi minha sorte? Ela me socorreu em alguns momentos. Veja bem, eu me comunico em inglês, me largue em qualquer canto que beleza, mas gente, como traduzir os termos de uma missa? Eu te pergunto: você sabe todos os sacramentos? Vou ser bem sincera, não sou grande conhecedora do assunto nem em português, quem dirá em inglês.

A prova tirada por Mauro

Foi uma experiência no mínimo curiosa, garanto que as pessoas presentes se divertiram horrores as minhas custas, tiraram fotos… Não vou mentir que pensei na hora “poxa, se eu soubesse que estaria aqui, teria deixado minha câmera com alguém…”, mas parece que Deus ouviu minhas preces… Quando eu olho, vejo uma pessoa conhecida se aproximando e tirando uma foto e pensei “meu Deus, quem será?”, tentei lembrar quando havia encontrado com ele no Caminho, mas não me recordava, no final a ficha caiu: era Mauro que conheci na AACS-RJ. Ele chegou bem na hora que estava lendo a benção em português.
Depois da missa recebi elogios de algumas pessoas que estavam presentes e fui tomar um vinho com uma turma nova de brasileiros: Mauro (que já conhecia), o irmão dele (que não lembro o nome), Fátima do RJ, Regina e Maria de Curitiba também (não estavam com Solange).
Perto de voltar pro puxadinho o padre Augusto chegou e nos fez companhia.

 

Hoje quase mando um pr’aquele lugar

Havia planejado sair cedão, mas, pra variar, fiquei acordada a noite toda e, na hora de levantar, o sono veio.
Saí às 8:00. Caminhada tranquila no meio do nada. Em Valtuille de Arriba fiquei conversando sobre política com o dono do bar. Não entrarei nesse mérito, mas foi interessante ter a visão socio-política da Espanha vindo de uma pessoa país, nem tudo são flores…
Parei no albergue municipal de Vilafranca del Bierzo para descansar. Conheci 2 espanhóis, o mais velho me ajudou com a dor nos pés enquanto o mais novo descansava com problemas no joelho. De lá fui ao Albergue Ave Fênix, carimbei a credencial e reencontrei o paulista de Campinas que havia conhecido com o trio no bar da Josefa (não lembro o nome dele). Ele disse que é amigo de Jesus e que estava há 2 dias lá no albergue ajudando, disse ainda que o trio passou por lá ontem e que ele deu uma carona para eles até O Cebreiro. Fiquei meio triste porque com isso era pouco provável que volte a encontrá-los…
Visitei o belo Templo de Santiago que fica ao lado do albergue..
Estava tudo bem até VFDB, depois, até Pereje, só foi estrada, estrada, asfalto, estrada e mais asfalto com uma dor no pé pra variar. Pedi penico, assumo! Liguei para um táxi já que hoje é sábado e o ônibus já havia passado e não tinha outra opção.
Enquanto esperava, comprei uma Coca-cola e um cara sentou ao meu lado querendo saber do caminho. Comentei que estava com uma dor no pé e que estava esperando um táxi para ir mais adiante quando ele ensaio um sermãozinho. Perguntei se ele já tinha feito o caminho e ele disse que não. Se não fosse o táxi que acabara de chegar juro que teria mandado ele enfiar o sermão num local mais apropriado, mas respirei fundo, ignorei e fui pro táxi bem feliz. Comentei com o taxista o que tinha acontecido e ele disse para eu relaxar que tem gente que não sabe o que fala e que ele sabia que os brasileiros só recorrem aos meios de transporte por necessidade mesmo. Olhe, você me poupe, um infeliz que nunca fez uma coisa dar sermão por alguém não estar fazendo direito, alow, alguém pelo menos está tentando!
Me retei e só por isso quis um calor humano e resolvi parar no Albergue do Brasil (5€+7€ pelo café da manhã). Itabira e Marilene de GO são muitos simpáticos, mas vale fazer algumas considerações. Achei o local aconchegante, tinha umas baianas e deve ser por isso que me senti em casa, sem contar que dormir na cama Salvador. Agora, achei os valores carinhos pela média do caminho, como o pé doía não fui dar um rolé na cidade e acabei comendo lá mesmo.
Depois da comida deliciosa de Orietta, criei uma grande expectativa porque Marilene havia adiantado que teríamos feijão no jantar. Tivemos salada de grão de bico com maçã, feijão, arroz, biscoito com doce de leite e amendoim por 13€, caro pela média e não valeu a pena pelo sabor. Só a sobremesa estava realmente boa. Saudade do feijãozinho de Orietta…
O albergue ficou vazio. Além de mim, tinha Robert da Alemanha, Nicolas da França (o francês diferente do caminho, interessando em outros idiomas, um fofo), Fábio da Itália e o senhor Cristovam da Espanha. O jantar foi bacana porque éramos poucos e rolou uma interação bacana. O senhor espanhol tem mais de 70 anos e estava fazendo o caminho pela décima de tanta vez. Comentei de meu pé e ele recomendou que eu despachasse a mochila porque a subida para O Cebreiro é muito puxada e eu não precisava desse sacrifício. Combinei com Itabira de despachar a mochila, mais uma vez, ouvindo a voz da experiência.

Encontros e Desencontros no Caminho

Dormi muito mal. Gente, calor, calor, calor! Pensei numa pessoa que em poucos dias não dormiu por conta do frio e agora não dorme por conta do calor, coisa de maluco!
Tomamos café no albergue (3€), saí para tirar umas fotos da cidade com esperança de achar alguma coisa aberta e comprar os tais pins e ímãs, mas foi em vão, quero prova esse pessoal levantando cedo no interior da Espanha, piada!
Zanza ainda chateada com a perda do diário (com razão) foi com Zé e Enedir de táxi refazer o caminho de ontem para ver se encontra o caderninho.
Decidi seguir em frente e combinamos de nos encontrar em Ponferrada.
Estava tranquila até chegar em uma bifurcação sem sinalização já próxima da cidade. Dei sorte porque um casal estava caminhando com um cachorrinho me orientou, foram tão solícitos que faltou só me deixarem na porta do albergue onde tinha combinado de encontrar o pessoal.
Chegando no lá só encontrei Enedir que contou que não acharam o diário e que não sabia o que iam fazer depois dali. Zanza e Zé tinham ido nos Correios despachar umas coisas.
Não esperei por eles porque decidi que ia comprar um tênis. Descobri que tenho uma pisada muito defeituosa, ortopedista assim que chegar ao Brasil! Agora você me pergunta: Tênis? E a bota? Respondo: havia optado pela bota porque seria impermeável, como molhou meus pés não faz mais sentido para mim já que é pesada pra caramba.
Comprei na loja do Sr. José Blanco. Ele trabalha com os filhos, todos muito simpáticos. No final (se deixasse passava o dia lá conversando), de deram uma cabaça, um dos símbolos dos peregrinos, de presente.
Ponferrada, como toda cidade grande por onde passei, é mal sinalizada, mas as pessoas são muito simpáticas e solícitas. As crianças foram algo a parte aqui. Um gurizinho fofo que passeava com a mãe fez questão de me cumprimentar e, depois disso, cruzei com um passeio escolar. As crianças de várias idades, com no máximo uns 7 anos, estavam com a vinheira de peregrino de papel no pescoço, quando passaram por mim algumas diziam “Buen camino, peregrina”, umas gracinhas! Devia ter mais de 50 crianças e agradeci a todas. Sabe-se lá que passeio era aquele, mas foi bem bonitinho!
Parei em Columbriano para descansar. Não importa o que calce, o pé dói. Pelo menos o tênis é mais leve. Fiquei com uma dor no joelho, mas imagino que tenha sido resultado das descidas bizarras de ontem.
Conheci 2 norueguesas quando parei para comer um sanduíche em Fuentas Nuevas. Elas começaram dia 1º de Maio em SJPP e até agora conseguiram fazer 100% caminhando.
Andei 23,680 km mais o rolé que dei em Ponferrada. Não sei como consegui chegar em Cacabelos, estava mancando, o joelho doendo horrores. Não resisti e acabei ficando em um hotel porque era mais perto que o albergue, o preço estava bom e o café da manhã era bem cedinho.
Depois do banho fui ao albergue municipal, mas, por algum milagre, não havia nenhum brasileiro. O trio deve ter ido pra frente.
De lá fui procurar um local para comer. Foi difícil, mas acabei comendo num lugar que servia massa, pedi um com frutos do mar, o erro! Horrível!
Voltei para o hotel e fiquei, literalmente, de pernas pro ar para descansar.

Cruz de Hierro

Seguindo as instruções de Jerom de não madrugar (como se precisasse), tomamos café e saímos por volta das 8 horas.
Dia de grande expectativa, pelo menos para mim, porque passaria pela famosa Cruz de Ferro. Bem, o que dizer, não foi como pensei. A cruz em si é minúscula, o monte de pedra e o poste onde a tal cruz fica que são grandes. Enfim, coloquei minha pedrinha, Zanza fez um ritual em nome de um bocado de gente que pediu para ela e seguimos em frente.
Próxima à cruz havia uma placa com a informação de que Foncebadon é uma cidade medieval criada em 946. Não vou mentir que essas coisas que eu adoro no caminho, tipo, quantas águas já não passaram por aqui? O mundo mudou tanto depois da criação dessa cidadezinha…
Seguimos com uma paisagem linda, mas um caminho bem difícil. Muito sobe e desce, mas, mais do que isso, ruim de andar por conta das diversas pedras (literais) no caminho, pedregulhos, cascalho e afins. Não vou mentir que peguei umas pedrinhas, lindas! Branquinhas, vermelhinhas, um cinza com um brilho… Assumo, só gente louca numa viagem dessa, depois da Cruz de Ferro, resolve colocar pedras na bagagem.
Curiosidade 2 do dia. Manjarin é a menor cidade do mundo! Sério. Na Espanha os municípios começam com uma placa com o nome da cidade e terminam com a mesma placa, porém com uma listra no meio (tipo proibido estacionar daqui), se entre uma placa e outra tem 50 metros é muito.
Em El Acebo fomos ao bar/mercadinho de Josefa/Josefina, vale a parada.
Chegamos em Molina Seca por volta das 17 horas. Ficamos no Albergue Santa Marina (7€), coloquei roupa para lavar (2€).
Quando paramos para jantar, encontramos um casal do Ceará (Dácio e Nilsa). Eles pegaram a credencial com Inês do RJ. Por falar em Inês… Alfredo do albergue reconheceu o símbolo da AACS e perguntou por ela e, olha que gozado, comentou que tem passado poucos brasileiros por lá (vá entender).
Passei numa farmácia para comprar umas coisinhas (curativo e sabonete que esqueci em Foncebadon), me pesei e continuo com o mesmo peso, pensei que tivesse emagrecido por conta das calças folgadas.
Comemos no Casa de Jamon (14€). Não pedimos o menu do peregrino, optamos pelo filé de terneira com salada e batata frita, estava uma delícia!
Fiquei chateada porque não comprei meus ímãs nem pins por aqui, Nilsa estava com uns bem bonitinhos e diferentes, mas comprou quando chegou e quando lembrei já estava tudo fechado.
Enedir tem máquina Sony também e trouxe o cabo. Consegui baixar umas fotinhas, só as dos 3 primeiros dias, terminei já no breu do albergue, fui obrigada a deitar.
A coisa chata do dia: Zanza perdeu o diário dela. Me deu uma dó, vocês não fazem ideia do que é perder o diário aqui. Não é nem apego nem nada, é que de fato perdemos um pouco da noção de tempo, a memória falha legal e é a forma que temos de deixar registradas as vivências, os nomes das pessoas, dos locais. Falo por mim que já não tenho memória boa e que anda bem ruim por aqui, tadinha…

Andar com fé eu vou…

inclusive de ônibus.
Isso mesmo. Hoje resolvemos, na cara larga, pegar um ônibus e nos poupar desse trecho que, apesar de plano e tranquilo para se andar é muito chato porque não se vê nada de muito interessante e é o tempo inteiro paralelo à rodovia, ou seja, barulho insuportável de carros.
Saímos do albergue às 8:30 para pegar o ônibus até Astorga. Não fomos direto para Foncebadón porque tinha visto no guia que tinha umas coisas bem interessantes em Astorga.
Assim como ontem, hoje víamos as montanhas cobertas de neve durante todo o percurso. Uma sorte danada foi a rodoviária de Astorga ser justamente na frente de onde queríamos ir: a muralha, o Palácio Episcopal e a Catedral. Coisa mais linda! Nossa, fiquei impressionada, muito bonito mesmo!
Depois de passear pelo local, ouvir a missa enquanto circulava pela catedral (Zanza e Zé Carlos viram a missa mesmo), esperamos na rodoviária até podermos comprar as passagens para Foncebadón. Na rodoviária conhecemos mais um brasileiro, Gumercindo de Dracena SP. Ele foi na mesma van que a gente, mas preferiu ficar em Rabanal del Camino que é bem menor que Foncebadón.
Tínhamos visto no guia oficial de Castilla y León que a cidade tem apenas 2 habitantes, mas constatamos que são bem mais que isso na verdade, não sei de onde tiraram esses números, mas tudo bem.
A caminho do povoado praticamente todo em ruínas, fomos nos aproximando das montanhas de neve. De fato já sabíamos que iríamos para o alto, mas neve novamente?!?!? Haja frio mais uma vez. Se bem que aqui está engraçado, um frio danado, com um sol de lascar, vá entender…
Ficamos no albergue paroquial (donativo). Foi bem bacana. Para começar o hospitaleiro francês, Jerome, já foi logo dizendo que ninguém saía antes das 7 horas, achamos ótimo! Depois disse que teria jantar lá mesmo e que cada um faria alguma coisa. Essa parte do jantar foi bem bacana. Enquanto Zanza ajudava com a sopa (ou coisa do tipo), me ofereci para fazer a salada. O pessoal apareceu para ajudar o que foi bem bacana para o entrosamento dos peregrinos. Antes de servir, Jerome quis falar umas coisas e perguntou quem poderia traduzir para o inglês enquanto ele falava em espanhol, como ninguém se ofereceu, me ofereci. Achei bacana o elogio depois disso de Joan da Irlanda. Até então tive contato com pessoas de outros países que não tinham inglês como língua mãe, disseram que falava bem e tal, mas o elogio de Joan teve seu efeito se é que me entende. Falei de Marian Keyes que adoro, ela disse que acha bacana também, que ela retrata bem o cotidiano das irlandesas. Acabou me indicando uma outra escritora irlandesa Maeve Binchy.
Depois do jantar um alemão (não sei o nome) pediu para tirar uma foto com um painel de um peixe, não entendi muito bem a função daquilo, mas segundo ele era algum projeto artístico dele. Ele meio que pede paras as pessoas que vai conhecendo no caminho tirarem fotos e deixarem mensagens atrás do tal peixe. Qual não foi a minha suspresa quando li mensagens de Ivone e Rubem de BH que conheci no hospital de Belorado, esse caminho é tão pequeno…
Zanza sugeriu e eu bem que tentei ver as estrelas, Foncebadón é um local bem apropriado (acho): alto e praticamente sem luminosidade, mas não deu! Era quase 22 horas e nem sinal de por do sol.

Quem mandou não ouvir Inês?

Demorei para começar minha caminhada hoje porque resolvi despachar mais algumas coisas e com isso tive de esperar os Correios abrirem às 8:30. Foram quase 3 kilos, a mochila ficou levinha e agora torço para não precisar de nada que tenha mandado para Sarria.
A saída de León foi sofrível a começar pela pegadinha peregrina. Explico. Estou eu lá seguindo contente as setinhas e conchinhas, passo pela Catedral e pluft, sumiu toda e qualquer sinalização. Parei uma mulher na rua que me explicou que a saída para continuar no Caminho era do outro lado, próximo à Igreja de San Marcos. Não vou mentir que durante o percurso parei para confirmar com outras pessoas já que a sinalização não estava lá essas coisas. Imagino que muitos peregrinos tenham tido dificuldades porque era um tal de gente olhando mapa, olhando de um lado para o outro indo e voltando que pelo amor de Deus. Dica: a saída de León não passa pela Catedral da cidade.
Já na saída da cidade reencontro Zanza, Zé Carlos e Enedir. Não pensei que fosse encontrá-lo porque quando eles saíram eu ainda estava arrumando minha mochila, mas me disseram que também demoraram para sair da cidade porque despacharam a mochila de Zé e Enedir.
Seguimos juntos e paramos para um lanche em Virgen Del Camino quando fomos assaltados. Comprei um sanduiche de queijo para variar pão duro e seco acompanhado da Coca-cola 220ml mais cara do mundo 3€, isso mesmo! Me senti lesada, não vou mentir. Nunca mais aceito essa garrafinha, se for para pagar 3€ que seja na lata pelo menos.
Agora veja como são as coisas, na mesma cidade encontramos um senhor super simpático e amigo dos peregrinos. Ele deixa uma mesa com água, uns petiscos e carimbo para a credencial, achei a atitude bacana e me fez reacreditar nas pessoas do caminho depois do velhinho ladrão (desculpem-me o tom dramático).
Fiquei muito chateada com o dia de hoje. Achei horrível, o tempo todo ao lado da rodovia, não dava para conversar nem ouvir o som dos pássaros. Por falar nisso, num raro momento de um intervalo mais prolongado entre carros, ouvimos o cuco novamente, uma e única vez porque depois o barulho não deu trégua. E agora vocês entenderão o título do post… Inês havia dito que, se fosse para pular algum trecho, que pulasse esse depois de León até Hospital de Órbigo, não dei ouvidos e deu no que deu. Portanto, caro amigo, vai por mim, se tiver de pular alguma coisa, pule sem dor na consciência esse trecho de hoje. Agora, imagine você a minha decepção depois dos dias de descanso forçado ter de fazer esse trecho desgranhento logo no recomeço da viagem. Para completar, tive o prazer de, em 2 horas, presenciar uma variação de temperatura louca de 9ºC e 26ºC… Enfim, foi bacana o reencontro com o pessoal e pronto (o que já foi grande coisa).
A minha idéia inicial era ir até Hospital de Órbigo, mas, como o pé não dá trégua, parei com o pessoal em San Martin Del Camino. Ficamos no Albergue Santa Ana (4€). O menu do peregrino no albergue custou 9€ e devo dizer que achei bem ruinzinho. A carne com batata frita estava bem estranha, a sopa aguada e sem gosto, de sobremesa teve fruta (ok) e hoje resolvi tomar vinho (estava bom) depois que Zanza me contou que não tem problema beber tomando antibiótico já que na verdade não é recomendável porque sobrecarrega o fígado, mas não corta o efeito. Como não bebi muito, me permiti uma tacinha inofensiva.

Encontros e reencontros no Caminho

Acordei péssima! Uma cidadã roncou a noite inteira, quando finalmente deu uma trégua já era hora de levantar ao som, mais uma vez, do arrocha dominicano. Arrumei minhas coisas, tomei café no mesmo bar/restaurante do centro e segui para a rodoviária. Achei que teria ônibus toda hora para León, mas não foi bem assim. Tive de esperar quase 2 horas e ainda assim, só consegui comprar a última poltrona porque o ônibus já estava lotado, como sugestão, se forem fazer o mesmo, comprem a passagem no dia anterior para não correr o risco de ficar sem passagem. Como os locutórios estavam fechados, fiquei fazendo hora na rodoviária e acabei conhecendo 2 britânicos: Xavier e Carrie. Super simpáticos! Xavier, para minha surpresa, falava pelos cotovelos. Pediu meu endereço porque tem o costume de trocar correspondência com pessoas do mundo todo, não serve email, ele acha impessoal. Ao contrário da maioria das pessoas que estavam na rodoviária, eles estavam voltando para casa depois de 3 semanas fazendo o caminho, foram de Carrión De Los Condes até Santiago, gostaram muito. Me despedi deles quando deu a hora dos locutórios abrirem, aproveitei para acessar internet e ligar para André, coitado, tenho ligado mega cedo…
Aproveitei para tirar uma mega soneca. Acordei em Carrión De Los Condes, quando olho para fora da janela vejo Zanza e Zé Carlos subindo no ônibus. Não falei com eles logo de cara porque ficamos afastados e o ônibus estava cheio. Falei com eles quando descemos na rodoviária de León. Eles estavam com Enedir de SC. Fomos todos juntos até o Albergue no Monastério Benedictinas Cabajalas (donativo com café da manhã). Reencontrei Flávia de SC e conheci Alex, o primeiro baiano da viagem. Por falar em Alex… O conheci quando estava estendendo as roupas que havia lavado no varal, e gente, o que foi aquilo? Um ciclista mega-ultra-super-master-blaster porco simplesmente colocou a roupa com toda a catinga do mundo para tomar um ar lá do ladinho das roupinhas das pessoas que tinha lavado e estavam com as roupas cheirosinhas. Creio que já disse antes, de todo modo, ser peregrino ou bicigrino não é sinônimo de porcogrino-fedidogrino. Pelo amor de Deus, por mais que a pessoa chegue cansada, todos chegam, dá para manter o mesmo nível de higiene. Enfim…
Durante meu passeio pelo centro da cidade vi umas pegadas de cobre. Curiosa que sou, diante da falta de explicação para o que seria aquilo, parei algumas pessoas para perguntar o que era aquilo e absolutamente ninguém soube me dizer o que era. Na volta para o albergue dei sorte pois, a hospitaleira gringa não estava, mas no lugar estava espanhola da cidade mesmo que me explicou que as tais pegadas é da rota romana que passa por lá e que, segundo ela, não tem nada a ver com o Caminho de Santiago. Ela disse ainda que León surgiu por conta desse entroncamento, por assim dizer, dessas rotas.
Aproveitei que estava em León para despachar quase 2 kilos de coisas para Sarria, poderia ter mandado já para Santiago, mas preferi não arriscar, vai que o tempo vira novamente? Como só tinha visto a previsão de uma semana, preferi fazer isso.

Noite em León


À noite, as freiras nos chamaram para a missa na capela ao lado, foi interessante porque primeiro não tinha padre celebrando, segundo as freiras cantavam divinamente e terceiro o local, apesar de simples, era bem bonito. Fiquei chateada porque, pela primeira vez, não estava com a câmera na hora da missa e não pude registrar o local. Na saída, porém, não resisti, saí correndo para pegar a máquina e tirar foto não apenas da primeira noite que vi aqui, como da belíssima paisagem de cor que ela nos presenteou.

Turisgrinando

Fomos acordados ao som da pachaca (juro que entendi isso, mas pesquisando na net parece que é bachata) um tipo de arrocha da República Dominicana. Ao explicar isso, Manoel comentou que quando o albergue está fechado ele passa um tempo por lá. O cara é um figura, ficou dançando com uma alemã no meio do quarto.
Mesmo podendo ficar no albergue por conta do atestado médico, tive de sair às 8 horas para que ele pudesse arrumar o lugar. Acabei tomando café com Sue (Austrália) e Velda (Nova Zelândia) no único lugar aberto aqui no centro da cidade.
Conversei com elas sobre minha preocupação de onde continuar e decidi ir até León de trem. Quero muito ir a Finesterre e numa próxima vez faço esse trecho contínuo que pulei de Belorado à León.
Na volta para o albergue aproveitei para tirar umas fotos do lugar já que as ruas estavam desertas. Na saída do bar vi umas pessoas vestidas com roupas medievais fazendo uma filmagem ou coisa do tipo.
Fiquei na internet do albergue conversando com Manoel até a hora do almoço. Oh erro ter puxado a conversa de onde continuar minha viagem. Ele disse que não importava a Compostelana¹, que era só um papel e que eu com essa minha preocupação estava me mostrando mais uma turisgrina, também, quem mandou mostrar as trocentas fotos que tirei? Mas veja você, é muito fácil para um europeu, especialmente espanhol falar isso “você termina depois” ou coisa do tipo, eles não fazem ideia da dificuldade que é para nós nos programarmos com férias de 30 dias sem comentar a questão de câmbio que não é para qualquer um. Enfim, me arrependi de ter comentado isso com ele, até porque a conversa com Sue e Velda foi mais legal, por assim dizer. Elas estão em uma situação parecida comigo pelo menos no que diz respeito a distância para chegar até ali (mais difícil para elas do que para mim, na verdade) e Sua disse uma coisa fantástica²: ninguém nos falou para fazermos todo o caminho a pé nem que tem de ser sofrível. Se você quer saber é isso mesmo.
Para não ter que ouvir mais sermão de Manoel, sai para almoçar, mas, como ainda não estava com fome, decidi conhecer a Catedral e só tenho uma palavra para descrevê-la FANTASTICA! Como já disse antes, apesar de achar as igrejas lindas, são dois os motivos para eu não ficar pagando para passear em Igreja: 1º) sim, mesmo bla bla bla de Salvador, fazer o quê? e 2º) depois de ver tantas igrejinhas medievais lindinhas você percebe que é tudo meio que igual. Mas A Catedral de Brugos não. É uma coisa enorme, gigante, cheia de estilo, quer dizer, estilos. Muito linda mesmo!
Comprei umas coisas num mercadinho na saída da Catedral: yemas de Brugos (iguais às de Sto Domingo), uns outros doces e suco de laranja. Almocei no Estrella de Galícia³, odiei a comida, o que salvou foi o pão que, ao contrário da maioria dos lugares, era pago.
Como o sol estava quentinho resolvi dar mais uma caminhada pelo centro. Tirei mais fotos, fui ao Castillo, muito bacana a parte histórica do lugar sem contar a beleza natural do parque onde ele está localizado, tem um mirante que dá para ver a cidade toda, uma bela vista. De lá fui às Muralhas e ao Arco de San Esteban.
Na volta passei pelo albergue municipal. Engraçado foi ter pensado, antes de ver a placa do albergue, que era um lindo hotel. Como Manoel já tinha dito, de fato é um belo hotel.
Depois do “citytour”, voltei para o albergue para dar uma descansada e ficar em um lugar quentinho. Apesar de ter dado uma esquentada considerável com os 12°C que faz agora, está meio geladinho à sombra e quando bate um ventinho.

Update:
¹ Manoel sabia das coisas, viu? Não é que ele tinha razão quanto a “desimportância” da Compostela em detrimento de aproveitar o caminho? Só não me arrependo do pulo que dei até León porque tive a felicidade de compartilhar ótimos momentos com Zanza, Zé e Enedir, mas se não fosse por isso…
² Durante o caminho ouvi a mesma coisa de mais trocentas pessoas e é verdade, você não tem de fazer tudo a pé se não estiver confortável, enfim, curta o caminho, ele não tem de ser um sofrimento. Se quiser sofrer não compre bota, não fique em caminha de albergue, também já comentei isso antes. Acho que o mais importante é: ouça seu coração, ele saberá mais do que ninguém que caminho você deve seguir e de que forma seguir.
³ Depois percebi que Estrella de Galícia é o nome de uma cerveja, mas enfim, não recomendo esse lugar que tem a tal placa com esse nome e que fica numa esquina próxima à Catedral.

Cadê a garganta que estava aqui?

O frio comeu!
Depois de passar a noite tossindo (pelos colegas de quarto devem ter curtido horrores) acordei tossindo uma secreção amarela-esverdiada com um pouquinho de sangue.
Encontrei Gilles e Silvia na cozinha/entrada do albergue, contei o que aconteceu e ele vira pra mim e diz “that’s great” eu pensei “oi?”, só mais tarde em Burgos fui entender, mas tudo bem. Ele perguntou se eu ia ver um médico eu disse que era melhor, daí fui olhar o papel informativo sobre atendimento médico nas cidades de Castilla e León e surpresa, em Atapuerca médico só as terças e quintas. Fui ver horário de ônibus para Burgos, só as sextas. Enquanto terminava de arrumar minhas coisas, a senhora francesa que dormiu no meu quarto viu a pulseirinha do Brasil que ganhei de Gabi, falou qualquer coisa que não entendi, só depois que ela pegou a bolsinha de dinheiro foi que eu entendi que ela queria comprar. Sorry, Gabi, acabei dando para ela. Parecia criança ganhando doce. Pelo que pude entender, ela adotou um menino em Itajubá, Minas Gerais, e repetia coisa como “meu bebê vai ficar tão feliz” ou coisas parecida. Achei que o bebê fosse uma criança, mas aí ela me puxa uma foto de um galalau enorme, mas tudo bem, mãe é mãe em tudo quanto é lugar. Acho até que de tanta saudade do filho ela não aguentou e a noite, enquanto já dormia, fui acordada com ela me cobrindo com o cobertor e pretendo embaixo de mim, sabe como é? Acordei claro, e ela fez um sinal ou qualquer coisa que entendi como “pra você ficar quentinha”, Enfim, amoleceu o coração atipatizado por franceses, devo dizer, foi uma fofa!
Terminei de me arrumar e fui até a cafeteria Las Cuervas onde tinha ido de manhã, para tomar café e perguntar se eles tinham o telefone de algum táxi.
Enquanto tomava café, entrou uma senhora francesa que era toda Tia Helena, o corpo, o jeito de andar e até a forma de mexer com as mãos, incrível! Deu saudade… Beijo, tia Helena, sei que Adriana está te mostrando o blog.
Dei um tempo até aliviar o lugar e peguei o telefone da central de táxi com a dona do lugar. Fui até o bar para ligar, mas estava fechado, volto para a padaria, espero eles atenderem os peregrinos que lotavam o lugar, pergunto se tem outro telefone e ela diz que por 0,50€ poderia fazer a ligação para mim. Esperei mais 30 minutos até o táxi chegar, detalhe, ele vem de Burgos. O táxi chegou, falei que queria ir ao médico e ele me levou a uma clínica que, segundo ele era mais tranquila e mais rápida que a emergência. Como disse Kate, é ridículo quando você percorre de carro em 10 minutos o que levamos um dia inteiro caminhando, mas tudo bem.
Cheguei na clínica e de fato estava vazia. A moça preencheu minha ficha e logo fui atendida. A médica me examinou, me transcreveu e já me deu um antibiótico para que eu tome por 1 semana. Falou para eu descansar por 3 ou 4 dias, colocou essa observação no papel do atendimento para que eu apresentasse no albergue.
Peguei o caminho que o taxista tinha me orientado até o centro da cidade onde fica, não só a Catedral belíssima, diga-se de passagem, como o albergue. Achei estranho que o albergue que entrei só tinham 16 camas, mas depois fiquei sabendo que tem um maior, na verdade. Adorei ter ficado nesse pequeno.
Assim que cheguei, meus serviços de tradutora foi requisitado pois uma australiana estava tentando conversar com Manoel, o hospitaleiro, mas eles não estavam se entendendo. No fim tudo se resolveu com a ajuda de Carla, a poliglota (men-tchira!). Ela queria ficar aqui depois de já ter passado a noite de ontem no outro albergue da cidade, os peregrinos não podem passar mais de um dia para que os que estão por vir tenham lugar onde ficar. Já fiquei tensa, mas já me preparando para ir para um hotel se fosse o caso, o cartão de crétido estaí pra isso mesmo, resolvemos os imprevistos e depois que venha a fatura, paciência. Enquanto pegava o papel que a médica me deu, fui explicando minha situação, antes mesmo de abri-lo ele disse “pode guardar, se a médica recomendou não tem problema”, falei que queria ver quantos dias ela tinha escrito porque, de fato, não me lembrava ao certo.
Depois de acomodada me arrumei para tomar banho, especialmente depois de ontem. Perguntei se ele tinha um secador porque nem sei quando foi a última fez que tinha lavado o cabelo por conta do frio que está fazendo, ele me deu e fui tomar banho feliz da vida.
Manoel é uma figura, fica cantarolando Roberto Carlos e agora a noite alguém comentou alguma coisa sobre um violão que tem ali no canto, pronto, foi a deixa para ele ficar todo soltinho, uma cantorinha danada agora a noite, legal pra variar!
Mas voltando aos acontecimentos cronologicamente…
Perguntei se tinha alguma loja de material fotográfico aqui perto, ele me indicou e fui. Comprei um cartão extra de memória para a máquina, já estou com quase mil fotos e isso porque não caminhei praticamente 3 dias, aproveitei para comprar um tripé como o de Gilles, é muito bacana especialmente para mim que viajo sozinha, só assim pegarei menos o chão nas próximas fotos, e por fim comprei uma bolsinha para a máquina para que possa deixar pendurada no pescoço para facilitar minha vida. Enquanto esperava a vendedora terminar com um cliente para eu perguntar onde tinha um telefone alí, vejo do lado de fora da loja as mineiras Bea, Regina e Rosângela. Sai correndo da loja parecendo uma maluca. Elas perguntaram como eu estava, contei o que aconteceu e soube que elas estão firmes e fortes e sem problemas, só de passagem por Burgos já que dormiram próximo daqui e iriam seguir no caminho.
Fui telefonar para André para comentar o e-mail sobre a locação dele, mommy, estou indo de volta para Salvador!!!! Não sei o mês ao certo, mas se tudo der certo, no segundo semestre, mais precisamente Julho, estarei de volta ao meu aconchego!!!
Reencontrei as mineirinhas no locutório, aproveitaram para ligar para casa. Dica do dia: usem os locutórios para telefonar, muito, mas muito masi baratos. Como lá também tinha internet, aproveitei para acessar e atualizar umas coisas no blog também. Não tanto quanto queria. Tanto para revisar como para escrever levo quase 1 hora, dá pra acreditar?
Enfim, como o frio insiste em marcar presença e não tenho mais roupa para tanto, resolvi comprar uma segunda pele, calça e blusa, para que eu possa fazer um revesamento, e além do mais não pesam. Aproveitei e comprei uma jaqueta daquelas corta vento, mas num tecido mais leve, me pareceu e agora, juntamente com o moletom que adquiri em Belorado, estou quentinha. Quer apostar quanto que amanhã começa o calor? Tô até vendo…
Almocei em um restaurante próximo à Catedral enorme, bela e imponete, tirei algumas fotos, só dela mesmo. Hoje estava meio sem saco para fotos. No caminho do albergue comprei minhas bugigangas de Burgos e uns chocolates. Enquanto escolhia os chocolates encontrei Jesus e o amigo dele. Apesar da dor no pé e do frio, ele continua firme e forte.
Quando cheguei no albergue, apesar de agora estar completo, só as alemãs que estavam aqui quando cheguei continuam. Elas estão mais que um dia na verdade também por recomendação médica. Michaela estava no mesmo albergue que eu em Belorado e pegou o mesmo ônibus que peguei para Atapuerca, ela ficou por aqui por conta de uma tendinite, pretende pegar um trem até León amanhã e ver se consegue seguir no caminho, disse que é a última tentativa, se não conseguir, vai curtir as férias num plano B. Juro que até pensei em ir visitar Aninha que está no sul da Espanha… Melhor não pensar nisso, vai dar tudo certo! Aproveitando faço uma enquete a vocês, caros amigos leitores, o que devo fazer depois de meus dias de descanso em Burgos? Seguir andando daqui ou ir até onde deveria estar e continuar de lá?
Depois de dar um tempo no albergue, voltei ao locutório e dessa vez passei 2 horas na internet, mais atualizações, cheguei a conversar com Adriana. Como o tempo passa rápido com umas bobagens que você faz online, tô pra ver.
Resolvi jantar na pizzaria que tinha visto no caminho. Fiquei toda feliz com uma Margarita (escrita assim mesmo) que vi lá, mesmo sem manjericão, mas quando veio parecia mais uma simples pizza de mussarela, mas tudo bem. Comi, tomei meus remédios e quando já estava pagando chegou Gilles e Silvia. Ele perguntou se já tinha comido, falei que sim e que já estava de saída. Quis saber como eu estava, falei que ia ficar por aqui, combinamos de conhecer a cidade amanhã.
Voltei para o albergue e acabei conhecendo as peregrinas que foram resgatadas nos Pirineus um pouco mais tarde no mesmo dia em que passei, Sue da Austrália e Velda da Nova Zelândia. Conversei um pouco com Michaela e uma outra alemã. Elas estavam tomando vinho, não pude beber por conta dos remédios. Pouco depois chegou um amigo delas e elas saíram aparentemente para curtir mais um sábado a noite. Fiquei aqui escrevendo ao som da serenata de Manoel, c’est la vie!

Comosapiens e a melhor comida ever!

Acordei, mas fiquei enrolando para levantar porque não tinha dormido direito com os malditos roncos e porque não estava com pressa mesmo.
Resolvi que pegaria um ônibus até Atapuerca que é o lugar onde deveria dormir no dia de hoje pela contas que fiz e pelas que refiz também.
Tomei café e fui até o local onde me orientaram para pegar o ônibus. Uma g.a.l.e.r.a de peregrinos lá esperando o busão e eu noiada por não estar fazendo a coisa direito, sei…
Enquanto esperava o ônibus conversei com umas alemãs que me perguntaram onde eu ia ficar, disse que em Atapuerca, daí uma francesa que estava lá perto veio me dizer que o ônibus não passava por lá que eu, assim como ela, teria de descer em Santovenia de Oca e andar até Atapuerca. Não estava contando com essa, quase mudo de ideia e vou de ônibus até Burgos. Por sorte não fiz isso e já já entenderão. Voltando à francesa… Como ela estava entendendo o que estava falando? São marrentíssimos as pestes, não dão o braço a torcer. Vão falar em francês sim! Usar mímica se for o caso, mas não vão facilitar a sua vida caso pudesse falar em algum outro idioma. Me recuso a acreditar que, de todos os países da Europa, a França é o único lugar onde as pessoas não apredem algum outro idioma, não é possível!
Voltando à viagem de ônibus… Estava frio, muito frio! O termômetro que tinha dentro do ônibus chegou a marcar 2°C e passamos por árvores cobertas de neve.
Desci na N-120 a 1 km de Santovência de Oca conforme orientação da francesa. Andei mais 3,810 km até Agés e mais 3,115km até Atapuerca.
Cheguei às 11 horas, mas o albergue estava fechado e só abriria às 13:00. Fui à padaria tomei um suco de laranja, depois fui ao bar telefonar para André e por fim fiquei fazendo hora no centro de recepção de visitantes. Eles oferecem internet de graça, mas estava com problema. Comprei um botom (0,50€) e um guarda-chuva (10€) mais leve e mais gracinha que o que peguei no Albergue de Acácio e Orieta. O rapaz que trabalha no centro perguntou se não queria ver o vídeo institucional que fala das atividades arqueológicas da cidade. Achei bem interessante, não fazia ideia de que tinha isso por aqui, descobertas realmente importantes. Fiquei sabendo num dos mapas que peguei lá que a pontezinha qeu tinha visto no caminho entre Agés e Atapuerca e que tirei trocentas fotos é medieval, uma das mais antigas e que a marcação de caminho que vi próximo a ela na verdade é um caminho alternativo para Santiago.
Ao chegar no Albergue (8€) reencontrei Jilles e Silvia. Não esperava encontrá-los porque a etapa de hoje era até Burgos, mas tudo bem. Contei o que aconteceu comigo, perguntei se perdi muita coisa nesse trecho que pulei e eles disseram que não, só a neve o que, na verdade, foi ótimo ter perdido, minha garganta agradece.
Disse a eles do centro de recepção aos visitantes e das coisas que tem lá. Tinha uma exposição, um parque arqueológico e um passeio às escavações, mas esse só sai uma vez por dia pela manhã. Disse que havia agendado uma visita às 16 para conhecer o parque arqueológico.
Pela primeira vez em muito tempo almocei no horário de almoço. Fui ao restaurante próximo ao albergue o Comosapiens. Achei demais a sacada do nome com as atividades do lugar, sem contar o detalhe fofo para indicar os toiletes e mais do que isso, sem contar a comida f.a.n.t.á.s.t.i.c.a que comi lá. Sério, tirando o feijão de Orieta, tem sido sofrível a comida por aqui que, quando não são super normais, são mega sofríveis. Mas não no Comosapiens. Pedi um churrasco de ternera, pedi mais pelo nome, me lembrei de nosso churrasco, mas não tem nada a ver, é um bife de vitela, mas não era qualquer bife, era O bife com um molho de erva que dava um sabor e um aroma todo especial. Sério, fiquei fã! Ah, isso é no menu do peregrino, tá? Paguei por essa delícia (9,50€) e lá ainda aceitava cartão. Junto com a maravilhosa vitela, comi uma sopa de batata com chouriço e paprica e de sobremesa um mousse de iogurte natural que não dei nada quando pedi, mas, meu Deus do céu, outra delícia! Fica a dica! Mesmo que você não durma em Atapuerca (mas durma se dê que vale a pena) pare para almoçar no Comosapiens e pergunte do churrasco de ternera.
Sai mega feliz do restaurante e fui para o albergue passar o tempo até a ida ao Parque Arqueológico. Como estava muito frio, resolvi dar uma deitada em meu saco de dormir quentinho, mas o inevitável aconteceu: dormi e só acordei às 17 horas. Quando sai, Gilles e Silvia estavam voltando da visita, falei que tinha perdido a hora, mas eles disseram que ainda estava aberto e que um outro grupo ia começar a visita.
Andei mais 1 km (some mais 1 para a volta) e fui ao parque (4€) que era um parque mesmo, digo, era uma representação da evolução humana, de como cada homem em sua época vivia e algumas curiosidades como o spray rústico, a forma de comunicação e terminou com o fogo que a guia fez na hora como nossos antepassados faziam. Apesar de simples, achei bem bacana o passeio.
A noite, voltei no Comosapiens para repetir a dose do almoço, mas, para minha tristeza o churrasco de ternera tinha terminado (buá!), com isso tive de pedir um frango na cerveja que, apesar de bom também, não se comparava ao ternerinha.
Por falar no albergue… é arrumadinho, mas não gostei de 3 coisas: 1) paredes meio finas – ficava ouvindo a conversa do povo nos outros quartos e o abrir e fechar das portas; 2) dizia no panfleto que tinha internet, mas na verdade o que oferencem é conexão wi-fi – hello! tirando os japinhas (coreanos), quem mais levou computador na mochila?, quem quiser tem de ir no centro de recepção ao visitante que só tem uma máquina; e 3) o frio – não pude tomar banho porque estava impraticável tirar qualquer das milhares de roupas que estava usando. Depois de ter passado frio, acho que a ficha da hospitaleira (que só vi quando cheguei e paguei) caiu e resolveu ligar a calefação. Como, apesar da caminhada, não suei nem um pouco, fiquei sem tomar banho mesmo e Deus abençoe o Banho de Gato da Natura, mutio bom!

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