1 ano depois…

Há exatos 1 ano eu começava o Caminho de Santiago. Comentários do final, a parte, quanta saudade dos lindo caminhos que percorri e dos amigos que encontrei… Um dia eu volto!

O paraíso de Samos

Sai de Triacastela às 7:30. Tinha ficado na dúvida de qual caminho seguir porque de lá existem 2 possibilidade para chegar até Sarria, um tradicional, por assim dizer, que aparece no guia oficial da Galícia onde aparecem alguns povoados e um outro que passa por Samos único ponto entre Triacastela e Sarria.
Decidi ir por Samos e não me arrependi: Lindo! O lugar é lindo, o caminho é lindo, por não ser o caminho preferido da galera reencontrei a paz, a tranquilidade e o sossego do início da viagem.
Gastei um tempinho para conhecer o monastério. Enquanto esperava o tour começar, fiquei tirando umas fotos, padre Augustino Miguel me pediu para tirar uma foto dele e mandar depois (detalhe: ainda não mandei).
Como sempre o pé incomodou (novidade), mas segui firme e forte até Sarria porque o único ônibus programado para o dia já havia passado. Uma coisa ruim de boa parte o trecho é que não tinha lugar para descansar, senti falta disso, poderia ter feito uns pontos de descanso ou coisa do tipo.
Segundo o guia da Galícia, andei 23,5 km, no guia dos albergues que tem sido minha referência só tem a informação do outro caminho.
Pra variar fiquei no primeiro local que avistei (cheguei às 17:30), nesse caso foi o albergue A Pedra (9€). Uma coisa bacana daqui é que quando chegamos ganhamos um kit com a roupa de cama descartável, material fininho, mas achei bacana a preocupação com a higiene.
Depois de me acomodar dei uma volta nos arredores do albergue. Comprei um chinelo, uma joelheira e uns comes e bebes.
Voltei para o albergue e separei as coisas para despachar amanhã, a mochila ficou leve!
Pedi o menu do peregrino no restaurante do dono do albergue (8€): salada mista, filet de terneira com batata frita, vinho e flan.
Conheci um peregrino brasileiro que, depois de terminar o caminho, como ainda tinha tempo antes de voltar para casa, resolveu fazer um “estágio” de hospitaleiro no albergue. Rafael (SP) além de aprendiz de hospitaleiro é mágico e faz palestras motivacionais.
Tive uma noite péssima, o estômago me matou, imagino que tenha sido o excesso do ibuprofeno. Detalhe que ao acordar vi um casal com movimentos mega suspeitos, mas tudo bem…

O dia em que Carla rezou uma missa


Decidi seguir o conselho de Cristovam e despachei a mochila (7€). Me senti super leve com minha pochete onde além das coisas de sempre (documentos, dinheiro etc) resolvi colocar meu kit primeiros socorros por assim dizer. Devo dizer que foi um estalo que me deu, não sei explicar, já que nunca precisei de nada durante o caminho e, até encontrar minha mochila nO Cebreiro não levaria tanto tempo assim.

Subida cheia de pedras

Algum tempo depois, bem no início da subida vem a explicação… Enquanto eu fotografava as imensas pedras do Caminho ouvi dois ciclistas se aproximando. Não eram bem bicigrinos porque, apesar das roupas de ciclistas não carregavam equipamento algum, nem capacete. Foi questão de segundos, olhei, os vi se aproximando, virei para tirar uma foto escuto um barulhão, quando olho vejo só um deles olhando pro barranco. O outro tinha caído de uma altura considerável. Desci até onde eles estavam e vi que o cara estava com um corte horrível na cabeça, o amigo com a mão toda suja tentando ajudar. Foi quando ofereci as coisas que tinha trazido, álcool gel, curativos, tesoura, enfim, não era nada muito apropriado, mas já ajudava até os outros amigos deles chegarem para poder levá-lo ao hospital.

Um dos ciclistas, o outro tá no barranco

Nesse momento tive aquela sensação de coisas estranhas do Caminho, sei lá, não sei explicar.
Segui em frente e fiquei chateada com uma coisa, não sei se foi o fato de estar sem mochila, mas várias pessoas passaram por mim e não me disseram ou não responderam ao já costumeiro “Buen Camino”. Achei bizarro, mas tudo bem. Entrei o casal de irlandeses (Joana e o marido que não me recordo o nome) e comentei isso, ela, uma fofa virou e disse “não seja por isso ‘buen camino’, não será por isso que você não terá”.
Mesmo sem mochila e sem chuva ou lama meu pé doeu depois que cheguei nO Cebreiro, decidi pegar um táxi (30€) até Triacastela por três motivos: primeiro porque queria cumprir o trecho do dia, segundo porque sabia que tinha uma descida bizarra até Triacastela e porque as acomodações estavam lotadas.
Em Triacastela a situação não foi muito diferente, mas o taxista consegui o contato do cara de uma pensão que me alugou um puxadinho (40€ sem café da manhã), por assim dizer, da casa dele. Não sei porque, mas estou com a impressão de que tudo meio que vai inflacionar a partir de agora, pois, em Triacastela, começa os 100 km finais e consequentemente o número maior de pessoas.
Me acomodei no puxadinho, tomei banho e sai para comer alguma coisa. Era umas 16/17 horas e, apesar de haver alguns bares/restaurantes abertos, apenas um estava servindo comida. A cena foi meio ridícula, uma rua estreita, dois bares um de frente pro outro, um lotado e o outro vazio. Olha, ‘cês vão me desculpar, mas depois neguinho vem falar que o país está em crise, sinceramente, não dá pra entender…

Quem será qeu tá ganhando dinheiro?

Enfim, comi e fui conhecer a igreja. Como ainda ia demorar até a missa (estava curiosa para assistir porque já tinha lido a respeito no blog não sei se o de Tilara ou o de Laila) fui comprar uma outra credencial, pois a minha já está completa.
Apesar do cansaço e da tentação de ir pro puxadinho, resisti firme porque, como o puxadinho ficava no final da rua, era possível que, se eu fosse, não retornasse. Fiquei sentada na igreja atualizando a agenda até o Padre Augusto vir conversar comigo. Falei que era do Brasil e ele logo se interessou porque teve câncer e disseram que graviola é bom no tratamento. Ele me mostrou a sacristia com as pilhas de orações em muitos idiomas. Quando saiu para se trocar, perguntou se eu falava inglês, eu disse que sim e ele completou dizendo que eu iria ajudá-lo, respondi que tudo bem. No blog ou de Laila ou de Tilara, já tinha lido que ele chama uma pessoa de cada país praticamente para ler a Benção do Peregrino em seu idioma.
Enquanto esperava conheci Solange, mais uma brasileira dessa vez de Curitiba. Não chegamos a conversar muito porque logo o padre entrou, cumprimentou a todos e me chamou para o altar. Sentei num dos bancos que ficam dispostos nas laterais e ele começou a fazer a chamada dos idiomas lá presentes: inglês, francês, castelhano, galego etc. Como a igreja estava lotada, Solange acabou sentando no altar também, o que foi minha sorte…
É, sorte! É que logo depois de acomodar todos ele e dizer que ninguém precisava ficar no senta-levanta das missas porque ele sabia da rotina do peregrino (ponto pra ele!), começou a falar da importância das pessoas, especialmente os espanhóis, falarem inglês, pois, querendo ou não é a língua mais falada pelas pessoas, o idioma da globalização. Depois disso, ele dá uma pausa e me chama. Chego ao lado dele que disse “traduza, por favor”. Eu falei e achei que era isso, mas aí ele vira “não senhora, fique aqui do meu lado, você vai me ajudar na missa”. Oi? Como assim? Tradução simultânea! Creia, do castelhano para o inglês. Isso mesmo, igreja lotada e eu lá dando o sermão junto com o padre. Sim, eu estava dando o sermão porque o padre desandava a falar, só depois dos sinais dos espanhóis ao ver minha cara de “alow, eu tô aqui pegue leve” é que ele se tocava e dizia “ah é, você… traduza”, com isso tinha que dizer com minhas palavras o que ele tinha acabado de falar, quando terminava ele “muito bem, está melhor do que eu”. Mas sim, por que Solange foi minha sorte? Ela me socorreu em alguns momentos. Veja bem, eu me comunico em inglês, me largue em qualquer canto que beleza, mas gente, como traduzir os termos de uma missa? Eu te pergunto: você sabe todos os sacramentos? Vou ser bem sincera, não sou grande conhecedora do assunto nem em português, quem dirá em inglês.

A prova tirada por Mauro

Foi uma experiência no mínimo curiosa, garanto que as pessoas presentes se divertiram horrores as minhas custas, tiraram fotos… Não vou mentir que pensei na hora “poxa, se eu soubesse que estaria aqui, teria deixado minha câmera com alguém…”, mas parece que Deus ouviu minhas preces… Quando eu olho, vejo uma pessoa conhecida se aproximando e tirando uma foto e pensei “meu Deus, quem será?”, tentei lembrar quando havia encontrado com ele no Caminho, mas não me recordava, no final a ficha caiu: era Mauro que conheci na AACS-RJ. Ele chegou bem na hora que estava lendo a benção em português.
Depois da missa recebi elogios de algumas pessoas que estavam presentes e fui tomar um vinho com uma turma nova de brasileiros: Mauro (que já conhecia), o irmão dele (que não lembro o nome), Fátima do RJ, Regina e Maria de Curitiba também (não estavam com Solange).
Perto de voltar pro puxadinho o padre Augusto chegou e nos fez companhia.

 

Hoje quase mando um pr’aquele lugar

Havia planejado sair cedão, mas, pra variar, fiquei acordada a noite toda e, na hora de levantar, o sono veio.
Saí às 8:00. Caminhada tranquila no meio do nada. Em Valtuille de Arriba fiquei conversando sobre política com o dono do bar. Não entrarei nesse mérito, mas foi interessante ter a visão socio-política da Espanha vindo de uma pessoa país, nem tudo são flores…
Parei no albergue municipal de Vilafranca del Bierzo para descansar. Conheci 2 espanhóis, o mais velho me ajudou com a dor nos pés enquanto o mais novo descansava com problemas no joelho. De lá fui ao Albergue Ave Fênix, carimbei a credencial e reencontrei o paulista de Campinas que havia conhecido com o trio no bar da Josefa (não lembro o nome dele). Ele disse que é amigo de Jesus e que estava há 2 dias lá no albergue ajudando, disse ainda que o trio passou por lá ontem e que ele deu uma carona para eles até O Cebreiro. Fiquei meio triste porque com isso era pouco provável que volte a encontrá-los…
Visitei o belo Templo de Santiago que fica ao lado do albergue..
Estava tudo bem até VFDB, depois, até Pereje, só foi estrada, estrada, asfalto, estrada e mais asfalto com uma dor no pé pra variar. Pedi penico, assumo! Liguei para um táxi já que hoje é sábado e o ônibus já havia passado e não tinha outra opção.
Enquanto esperava, comprei uma Coca-cola e um cara sentou ao meu lado querendo saber do caminho. Comentei que estava com uma dor no pé e que estava esperando um táxi para ir mais adiante quando ele ensaio um sermãozinho. Perguntei se ele já tinha feito o caminho e ele disse que não. Se não fosse o táxi que acabara de chegar juro que teria mandado ele enfiar o sermão num local mais apropriado, mas respirei fundo, ignorei e fui pro táxi bem feliz. Comentei com o taxista o que tinha acontecido e ele disse para eu relaxar que tem gente que não sabe o que fala e que ele sabia que os brasileiros só recorrem aos meios de transporte por necessidade mesmo. Olhe, você me poupe, um infeliz que nunca fez uma coisa dar sermão por alguém não estar fazendo direito, alow, alguém pelo menos está tentando!
Me retei e só por isso quis um calor humano e resolvi parar no Albergue do Brasil (5€+7€ pelo café da manhã). Itabira e Marilene de GO são muitos simpáticos, mas vale fazer algumas considerações. Achei o local aconchegante, tinha umas baianas e deve ser por isso que me senti em casa, sem contar que dormir na cama Salvador. Agora, achei os valores carinhos pela média do caminho, como o pé doía não fui dar um rolé na cidade e acabei comendo lá mesmo.
Depois da comida deliciosa de Orietta, criei uma grande expectativa porque Marilene havia adiantado que teríamos feijão no jantar. Tivemos salada de grão de bico com maçã, feijão, arroz, biscoito com doce de leite e amendoim por 13€, caro pela média e não valeu a pena pelo sabor. Só a sobremesa estava realmente boa. Saudade do feijãozinho de Orietta…
O albergue ficou vazio. Além de mim, tinha Robert da Alemanha, Nicolas da França (o francês diferente do caminho, interessando em outros idiomas, um fofo), Fábio da Itália e o senhor Cristovam da Espanha. O jantar foi bacana porque éramos poucos e rolou uma interação bacana. O senhor espanhol tem mais de 70 anos e estava fazendo o caminho pela décima de tanta vez. Comentei de meu pé e ele recomendou que eu despachasse a mochila porque a subida para O Cebreiro é muito puxada e eu não precisava desse sacrifício. Combinei com Itabira de despachar a mochila, mais uma vez, ouvindo a voz da experiência.

Encontros e Desencontros no Caminho

Dormi muito mal. Gente, calor, calor, calor! Pensei numa pessoa que em poucos dias não dormiu por conta do frio e agora não dorme por conta do calor, coisa de maluco!
Tomamos café no albergue (3€), saí para tirar umas fotos da cidade com esperança de achar alguma coisa aberta e comprar os tais pins e ímãs, mas foi em vão, quero prova esse pessoal levantando cedo no interior da Espanha, piada!
Zanza ainda chateada com a perda do diário (com razão) foi com Zé e Enedir de táxi refazer o caminho de ontem para ver se encontra o caderninho.
Decidi seguir em frente e combinamos de nos encontrar em Ponferrada.
Estava tranquila até chegar em uma bifurcação sem sinalização já próxima da cidade. Dei sorte porque um casal estava caminhando com um cachorrinho me orientou, foram tão solícitos que faltou só me deixarem na porta do albergue onde tinha combinado de encontrar o pessoal.
Chegando no lá só encontrei Enedir que contou que não acharam o diário e que não sabia o que iam fazer depois dali. Zanza e Zé tinham ido nos Correios despachar umas coisas.
Não esperei por eles porque decidi que ia comprar um tênis. Descobri que tenho uma pisada muito defeituosa, ortopedista assim que chegar ao Brasil! Agora você me pergunta: Tênis? E a bota? Respondo: havia optado pela bota porque seria impermeável, como molhou meus pés não faz mais sentido para mim já que é pesada pra caramba.
Comprei na loja do Sr. José Blanco. Ele trabalha com os filhos, todos muito simpáticos. No final (se deixasse passava o dia lá conversando), de deram uma cabaça, um dos símbolos dos peregrinos, de presente.
Ponferrada, como toda cidade grande por onde passei, é mal sinalizada, mas as pessoas são muito simpáticas e solícitas. As crianças foram algo a parte aqui. Um gurizinho fofo que passeava com a mãe fez questão de me cumprimentar e, depois disso, cruzei com um passeio escolar. As crianças de várias idades, com no máximo uns 7 anos, estavam com a vinheira de peregrino de papel no pescoço, quando passaram por mim algumas diziam “Buen camino, peregrina”, umas gracinhas! Devia ter mais de 50 crianças e agradeci a todas. Sabe-se lá que passeio era aquele, mas foi bem bonitinho!
Parei em Columbriano para descansar. Não importa o que calce, o pé dói. Pelo menos o tênis é mais leve. Fiquei com uma dor no joelho, mas imagino que tenha sido resultado das descidas bizarras de ontem.
Conheci 2 norueguesas quando parei para comer um sanduíche em Fuentas Nuevas. Elas começaram dia 1º de Maio em SJPP e até agora conseguiram fazer 100% caminhando.
Andei 23,680 km mais o rolé que dei em Ponferrada. Não sei como consegui chegar em Cacabelos, estava mancando, o joelho doendo horrores. Não resisti e acabei ficando em um hotel porque era mais perto que o albergue, o preço estava bom e o café da manhã era bem cedinho.
Depois do banho fui ao albergue municipal, mas, por algum milagre, não havia nenhum brasileiro. O trio deve ter ido pra frente.
De lá fui procurar um local para comer. Foi difícil, mas acabei comendo num lugar que servia massa, pedi um com frutos do mar, o erro! Horrível!
Voltei para o hotel e fiquei, literalmente, de pernas pro ar para descansar.

Cruz de Hierro

Seguindo as instruções de Jerom de não madrugar (como se precisasse), tomamos café e saímos por volta das 8 horas.
Dia de grande expectativa, pelo menos para mim, porque passaria pela famosa Cruz de Ferro. Bem, o que dizer, não foi como pensei. A cruz em si é minúscula, o monte de pedra e o poste onde a tal cruz fica que são grandes. Enfim, coloquei minha pedrinha, Zanza fez um ritual em nome de um bocado de gente que pediu para ela e seguimos em frente.
Próxima à cruz havia uma placa com a informação de que Foncebadon é uma cidade medieval criada em 946. Não vou mentir que essas coisas que eu adoro no caminho, tipo, quantas águas já não passaram por aqui? O mundo mudou tanto depois da criação dessa cidadezinha…
Seguimos com uma paisagem linda, mas um caminho bem difícil. Muito sobe e desce, mas, mais do que isso, ruim de andar por conta das diversas pedras (literais) no caminho, pedregulhos, cascalho e afins. Não vou mentir que peguei umas pedrinhas, lindas! Branquinhas, vermelhinhas, um cinza com um brilho… Assumo, só gente louca numa viagem dessa, depois da Cruz de Ferro, resolve colocar pedras na bagagem.
Curiosidade 2 do dia. Manjarin é a menor cidade do mundo! Sério. Na Espanha os municípios começam com uma placa com o nome da cidade e terminam com a mesma placa, porém com uma listra no meio (tipo proibido estacionar daqui), se entre uma placa e outra tem 50 metros é muito.
Em El Acebo fomos ao bar/mercadinho de Josefa/Josefina, vale a parada.
Chegamos em Molina Seca por volta das 17 horas. Ficamos no Albergue Santa Marina (7€), coloquei roupa para lavar (2€).
Quando paramos para jantar, encontramos um casal do Ceará (Dácio e Nilsa). Eles pegaram a credencial com Inês do RJ. Por falar em Inês… Alfredo do albergue reconheceu o símbolo da AACS e perguntou por ela e, olha que gozado, comentou que tem passado poucos brasileiros por lá (vá entender).
Passei numa farmácia para comprar umas coisinhas (curativo e sabonete que esqueci em Foncebadon), me pesei e continuo com o mesmo peso, pensei que tivesse emagrecido por conta das calças folgadas.
Comemos no Casa de Jamon (14€). Não pedimos o menu do peregrino, optamos pelo filé de terneira com salada e batata frita, estava uma delícia!
Fiquei chateada porque não comprei meus ímãs nem pins por aqui, Nilsa estava com uns bem bonitinhos e diferentes, mas comprou quando chegou e quando lembrei já estava tudo fechado.
Enedir tem máquina Sony também e trouxe o cabo. Consegui baixar umas fotinhas, só as dos 3 primeiros dias, terminei já no breu do albergue, fui obrigada a deitar.
A coisa chata do dia: Zanza perdeu o diário dela. Me deu uma dó, vocês não fazem ideia do que é perder o diário aqui. Não é nem apego nem nada, é que de fato perdemos um pouco da noção de tempo, a memória falha legal e é a forma que temos de deixar registradas as vivências, os nomes das pessoas, dos locais. Falo por mim que já não tenho memória boa e que anda bem ruim por aqui, tadinha…

Andar com fé eu vou…

inclusive de ônibus.
Isso mesmo. Hoje resolvemos, na cara larga, pegar um ônibus e nos poupar desse trecho que, apesar de plano e tranquilo para se andar é muito chato porque não se vê nada de muito interessante e é o tempo inteiro paralelo à rodovia, ou seja, barulho insuportável de carros.
Saímos do albergue às 8:30 para pegar o ônibus até Astorga. Não fomos direto para Foncebadón porque tinha visto no guia que tinha umas coisas bem interessantes em Astorga.
Assim como ontem, hoje víamos as montanhas cobertas de neve durante todo o percurso. Uma sorte danada foi a rodoviária de Astorga ser justamente na frente de onde queríamos ir: a muralha, o Palácio Episcopal e a Catedral. Coisa mais linda! Nossa, fiquei impressionada, muito bonito mesmo!
Depois de passear pelo local, ouvir a missa enquanto circulava pela catedral (Zanza e Zé Carlos viram a missa mesmo), esperamos na rodoviária até podermos comprar as passagens para Foncebadón. Na rodoviária conhecemos mais um brasileiro, Gumercindo de Dracena SP. Ele foi na mesma van que a gente, mas preferiu ficar em Rabanal del Camino que é bem menor que Foncebadón.
Tínhamos visto no guia oficial de Castilla y León que a cidade tem apenas 2 habitantes, mas constatamos que são bem mais que isso na verdade, não sei de onde tiraram esses números, mas tudo bem.
A caminho do povoado praticamente todo em ruínas, fomos nos aproximando das montanhas de neve. De fato já sabíamos que iríamos para o alto, mas neve novamente?!?!? Haja frio mais uma vez. Se bem que aqui está engraçado, um frio danado, com um sol de lascar, vá entender…
Ficamos no albergue paroquial (donativo). Foi bem bacana. Para começar o hospitaleiro francês, Jerome, já foi logo dizendo que ninguém saía antes das 7 horas, achamos ótimo! Depois disse que teria jantar lá mesmo e que cada um faria alguma coisa. Essa parte do jantar foi bem bacana. Enquanto Zanza ajudava com a sopa (ou coisa do tipo), me ofereci para fazer a salada. O pessoal apareceu para ajudar o que foi bem bacana para o entrosamento dos peregrinos. Antes de servir, Jerome quis falar umas coisas e perguntou quem poderia traduzir para o inglês enquanto ele falava em espanhol, como ninguém se ofereceu, me ofereci. Achei bacana o elogio depois disso de Joan da Irlanda. Até então tive contato com pessoas de outros países que não tinham inglês como língua mãe, disseram que falava bem e tal, mas o elogio de Joan teve seu efeito se é que me entende. Falei de Marian Keyes que adoro, ela disse que acha bacana também, que ela retrata bem o cotidiano das irlandesas. Acabou me indicando uma outra escritora irlandesa Maeve Binchy.
Depois do jantar um alemão (não sei o nome) pediu para tirar uma foto com um painel de um peixe, não entendi muito bem a função daquilo, mas segundo ele era algum projeto artístico dele. Ele meio que pede paras as pessoas que vai conhecendo no caminho tirarem fotos e deixarem mensagens atrás do tal peixe. Qual não foi a minha suspresa quando li mensagens de Ivone e Rubem de BH que conheci no hospital de Belorado, esse caminho é tão pequeno…
Zanza sugeriu e eu bem que tentei ver as estrelas, Foncebadón é um local bem apropriado (acho): alto e praticamente sem luminosidade, mas não deu! Era quase 22 horas e nem sinal de por do sol.

Quem mandou não ouvir Inês?

Demorei para começar minha caminhada hoje porque resolvi despachar mais algumas coisas e com isso tive de esperar os Correios abrirem às 8:30. Foram quase 3 kilos, a mochila ficou levinha e agora torço para não precisar de nada que tenha mandado para Sarria.
A saída de León foi sofrível a começar pela pegadinha peregrina. Explico. Estou eu lá seguindo contente as setinhas e conchinhas, passo pela Catedral e pluft, sumiu toda e qualquer sinalização. Parei uma mulher na rua que me explicou que a saída para continuar no Caminho era do outro lado, próximo à Igreja de San Marcos. Não vou mentir que durante o percurso parei para confirmar com outras pessoas já que a sinalização não estava lá essas coisas. Imagino que muitos peregrinos tenham tido dificuldades porque era um tal de gente olhando mapa, olhando de um lado para o outro indo e voltando que pelo amor de Deus. Dica: a saída de León não passa pela Catedral da cidade.
Já na saída da cidade reencontro Zanza, Zé Carlos e Enedir. Não pensei que fosse encontrá-lo porque quando eles saíram eu ainda estava arrumando minha mochila, mas me disseram que também demoraram para sair da cidade porque despacharam a mochila de Zé e Enedir.
Seguimos juntos e paramos para um lanche em Virgen Del Camino quando fomos assaltados. Comprei um sanduiche de queijo para variar pão duro e seco acompanhado da Coca-cola 220ml mais cara do mundo 3€, isso mesmo! Me senti lesada, não vou mentir. Nunca mais aceito essa garrafinha, se for para pagar 3€ que seja na lata pelo menos.
Agora veja como são as coisas, na mesma cidade encontramos um senhor super simpático e amigo dos peregrinos. Ele deixa uma mesa com água, uns petiscos e carimbo para a credencial, achei a atitude bacana e me fez reacreditar nas pessoas do caminho depois do velhinho ladrão (desculpem-me o tom dramático).
Fiquei muito chateada com o dia de hoje. Achei horrível, o tempo todo ao lado da rodovia, não dava para conversar nem ouvir o som dos pássaros. Por falar nisso, num raro momento de um intervalo mais prolongado entre carros, ouvimos o cuco novamente, uma e única vez porque depois o barulho não deu trégua. E agora vocês entenderão o título do post… Inês havia dito que, se fosse para pular algum trecho, que pulasse esse depois de León até Hospital de Órbigo, não dei ouvidos e deu no que deu. Portanto, caro amigo, vai por mim, se tiver de pular alguma coisa, pule sem dor na consciência esse trecho de hoje. Agora, imagine você a minha decepção depois dos dias de descanso forçado ter de fazer esse trecho desgranhento logo no recomeço da viagem. Para completar, tive o prazer de, em 2 horas, presenciar uma variação de temperatura louca de 9ºC e 26ºC… Enfim, foi bacana o reencontro com o pessoal e pronto (o que já foi grande coisa).
A minha idéia inicial era ir até Hospital de Órbigo, mas, como o pé não dá trégua, parei com o pessoal em San Martin Del Camino. Ficamos no Albergue Santa Ana (4€). O menu do peregrino no albergue custou 9€ e devo dizer que achei bem ruinzinho. A carne com batata frita estava bem estranha, a sopa aguada e sem gosto, de sobremesa teve fruta (ok) e hoje resolvi tomar vinho (estava bom) depois que Zanza me contou que não tem problema beber tomando antibiótico já que na verdade não é recomendável porque sobrecarrega o fígado, mas não corta o efeito. Como não bebi muito, me permiti uma tacinha inofensiva.

Encontros e reencontros no Caminho

Acordei péssima! Uma cidadã roncou a noite inteira, quando finalmente deu uma trégua já era hora de levantar ao som, mais uma vez, do arrocha dominicano. Arrumei minhas coisas, tomei café no mesmo bar/restaurante do centro e segui para a rodoviária. Achei que teria ônibus toda hora para León, mas não foi bem assim. Tive de esperar quase 2 horas e ainda assim, só consegui comprar a última poltrona porque o ônibus já estava lotado, como sugestão, se forem fazer o mesmo, comprem a passagem no dia anterior para não correr o risco de ficar sem passagem. Como os locutórios estavam fechados, fiquei fazendo hora na rodoviária e acabei conhecendo 2 britânicos: Xavier e Carrie. Super simpáticos! Xavier, para minha surpresa, falava pelos cotovelos. Pediu meu endereço porque tem o costume de trocar correspondência com pessoas do mundo todo, não serve email, ele acha impessoal. Ao contrário da maioria das pessoas que estavam na rodoviária, eles estavam voltando para casa depois de 3 semanas fazendo o caminho, foram de Carrión De Los Condes até Santiago, gostaram muito. Me despedi deles quando deu a hora dos locutórios abrirem, aproveitei para acessar internet e ligar para André, coitado, tenho ligado mega cedo…
Aproveitei para tirar uma mega soneca. Acordei em Carrión De Los Condes, quando olho para fora da janela vejo Zanza e Zé Carlos subindo no ônibus. Não falei com eles logo de cara porque ficamos afastados e o ônibus estava cheio. Falei com eles quando descemos na rodoviária de León. Eles estavam com Enedir de SC. Fomos todos juntos até o Albergue no Monastério Benedictinas Cabajalas (donativo com café da manhã). Reencontrei Flávia de SC e conheci Alex, o primeiro baiano da viagem. Por falar em Alex… O conheci quando estava estendendo as roupas que havia lavado no varal, e gente, o que foi aquilo? Um ciclista mega-ultra-super-master-blaster porco simplesmente colocou a roupa com toda a catinga do mundo para tomar um ar lá do ladinho das roupinhas das pessoas que tinha lavado e estavam com as roupas cheirosinhas. Creio que já disse antes, de todo modo, ser peregrino ou bicigrino não é sinônimo de porcogrino-fedidogrino. Pelo amor de Deus, por mais que a pessoa chegue cansada, todos chegam, dá para manter o mesmo nível de higiene. Enfim…
Durante meu passeio pelo centro da cidade vi umas pegadas de cobre. Curiosa que sou, diante da falta de explicação para o que seria aquilo, parei algumas pessoas para perguntar o que era aquilo e absolutamente ninguém soube me dizer o que era. Na volta para o albergue dei sorte pois, a hospitaleira gringa não estava, mas no lugar estava espanhola da cidade mesmo que me explicou que as tais pegadas é da rota romana que passa por lá e que, segundo ela, não tem nada a ver com o Caminho de Santiago. Ela disse ainda que León surgiu por conta desse entroncamento, por assim dizer, dessas rotas.
Aproveitei que estava em León para despachar quase 2 kilos de coisas para Sarria, poderia ter mandado já para Santiago, mas preferi não arriscar, vai que o tempo vira novamente? Como só tinha visto a previsão de uma semana, preferi fazer isso.

Noite em León


À noite, as freiras nos chamaram para a missa na capela ao lado, foi interessante porque primeiro não tinha padre celebrando, segundo as freiras cantavam divinamente e terceiro o local, apesar de simples, era bem bonito. Fiquei chateada porque, pela primeira vez, não estava com a câmera na hora da missa e não pude registrar o local. Na saída, porém, não resisti, saí correndo para pegar a máquina e tirar foto não apenas da primeira noite que vi aqui, como da belíssima paisagem de cor que ela nos presenteou.

Turisgrinando

Fomos acordados ao som da pachaca (juro que entendi isso, mas pesquisando na net parece que é bachata) um tipo de arrocha da República Dominicana. Ao explicar isso, Manoel comentou que quando o albergue está fechado ele passa um tempo por lá. O cara é um figura, ficou dançando com uma alemã no meio do quarto.
Mesmo podendo ficar no albergue por conta do atestado médico, tive de sair às 8 horas para que ele pudesse arrumar o lugar. Acabei tomando café com Sue (Austrália) e Velda (Nova Zelândia) no único lugar aberto aqui no centro da cidade.
Conversei com elas sobre minha preocupação de onde continuar e decidi ir até León de trem. Quero muito ir a Finesterre e numa próxima vez faço esse trecho contínuo que pulei de Belorado à León.
Na volta para o albergue aproveitei para tirar umas fotos do lugar já que as ruas estavam desertas. Na saída do bar vi umas pessoas vestidas com roupas medievais fazendo uma filmagem ou coisa do tipo.
Fiquei na internet do albergue conversando com Manoel até a hora do almoço. Oh erro ter puxado a conversa de onde continuar minha viagem. Ele disse que não importava a Compostelana¹, que era só um papel e que eu com essa minha preocupação estava me mostrando mais uma turisgrina, também, quem mandou mostrar as trocentas fotos que tirei? Mas veja você, é muito fácil para um europeu, especialmente espanhol falar isso “você termina depois” ou coisa do tipo, eles não fazem ideia da dificuldade que é para nós nos programarmos com férias de 30 dias sem comentar a questão de câmbio que não é para qualquer um. Enfim, me arrependi de ter comentado isso com ele, até porque a conversa com Sue e Velda foi mais legal, por assim dizer. Elas estão em uma situação parecida comigo pelo menos no que diz respeito a distância para chegar até ali (mais difícil para elas do que para mim, na verdade) e Sua disse uma coisa fantástica²: ninguém nos falou para fazermos todo o caminho a pé nem que tem de ser sofrível. Se você quer saber é isso mesmo.
Para não ter que ouvir mais sermão de Manoel, sai para almoçar, mas, como ainda não estava com fome, decidi conhecer a Catedral e só tenho uma palavra para descrevê-la FANTASTICA! Como já disse antes, apesar de achar as igrejas lindas, são dois os motivos para eu não ficar pagando para passear em Igreja: 1º) sim, mesmo bla bla bla de Salvador, fazer o quê? e 2º) depois de ver tantas igrejinhas medievais lindinhas você percebe que é tudo meio que igual. Mas A Catedral de Brugos não. É uma coisa enorme, gigante, cheia de estilo, quer dizer, estilos. Muito linda mesmo!
Comprei umas coisas num mercadinho na saída da Catedral: yemas de Brugos (iguais às de Sto Domingo), uns outros doces e suco de laranja. Almocei no Estrella de Galícia³, odiei a comida, o que salvou foi o pão que, ao contrário da maioria dos lugares, era pago.
Como o sol estava quentinho resolvi dar mais uma caminhada pelo centro. Tirei mais fotos, fui ao Castillo, muito bacana a parte histórica do lugar sem contar a beleza natural do parque onde ele está localizado, tem um mirante que dá para ver a cidade toda, uma bela vista. De lá fui às Muralhas e ao Arco de San Esteban.
Na volta passei pelo albergue municipal. Engraçado foi ter pensado, antes de ver a placa do albergue, que era um lindo hotel. Como Manoel já tinha dito, de fato é um belo hotel.
Depois do “citytour”, voltei para o albergue para dar uma descansada e ficar em um lugar quentinho. Apesar de ter dado uma esquentada considerável com os 12°C que faz agora, está meio geladinho à sombra e quando bate um ventinho.

Update:
¹ Manoel sabia das coisas, viu? Não é que ele tinha razão quanto a “desimportância” da Compostela em detrimento de aproveitar o caminho? Só não me arrependo do pulo que dei até León porque tive a felicidade de compartilhar ótimos momentos com Zanza, Zé e Enedir, mas se não fosse por isso…
² Durante o caminho ouvi a mesma coisa de mais trocentas pessoas e é verdade, você não tem de fazer tudo a pé se não estiver confortável, enfim, curta o caminho, ele não tem de ser um sofrimento. Se quiser sofrer não compre bota, não fique em caminha de albergue, também já comentei isso antes. Acho que o mais importante é: ouça seu coração, ele saberá mais do que ninguém que caminho você deve seguir e de que forma seguir.
³ Depois percebi que Estrella de Galícia é o nome de uma cerveja, mas enfim, não recomendo esse lugar que tem a tal placa com esse nome e que fica numa esquina próxima à Catedral.

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